domingo, 29 de abril de 2012

Viajantes, mágicos e xamãs



Para a capa do livreto do disco de Danny Paradise, Travelers, Magicians & Shamans.


Um desenho que fiz em meu caderno, durante a viagem pela Floreta Amazônica na mesma ocasião em que encontrei o Danny. Em 1992. 
Danny gostou muito do desenho e quis usar como capa. Coloquei umas cores e ficou isso aí. 









sábado, 21 de abril de 2012

Síntese heterogênea



Maurice Denis, Taches de soleil sur la terrasse (Manchas de sol no terraço),




1890, óleo sobre cartão, 20 x 20,5 cm, Museu d'Orsay, Paris.



dezinfluências mais uma 6: Les Nabis




Nabi significa profeta em hebreu e árabe. E foi com esse termo, sugerido a Paul Sérusier pelo escritor Cazalis, que um grupo de uma dúzia de jovens artistas, aproximadamente entre 1888 e 1900, escolheu se designar, meio sériamente, meio como piada, para afirmar sua vontade comum de romper os limites da pintura oficial e renovar a arte em todas as suas formas.


Félix Vallotton,
Enfant jouant au ballon ou Le Ballon
(Criança brincando com bola ou A Bola),
1899, óleo sobre cartão colado em madeira,
48 x 61 cm, Museu D'Orsay, Paris






Sintetismo: Uma pequena paisagem informa à medida que é formulada sintéticamente. 
(Maurice Denis)






Lembrar-se que uma pintura, antes de ser de um cavalo de batalha, uma mulher nua ou uma anedota qualquer, é uma superfície plana, coberta de cores em uma certa ordem organizada.
(Maurice Denis)






Pintar aquilo que vemos, de súbito, entrando em uma sala.
(Bonnard)






O conteúdo de emoção, que apenas a observação pode oferecer, é a condição primeira de uma obra de arte, antes do espírito de método e a inteligência prática que nascem na própria alma que experimenta essa emoção.
(Vuillard)


Maurice Denis,
les Muses (as Musas),
1893, óleo sobre tela, 168 x 135cm
Museu d'Orsay, Paris




Por que é que é nos lugares familiares que o espírito e a sensibilidade encontram o verdadeiramente novo?
(Vuillard)






Buscar a emoção simples e natural.
(Vuillard)






Pintura não é mais do que buscar essas imagens interiores, por meio abundante também, de cores e formas.
(Vuillard)






Pierre Bonnard,
l'Omnibus (o Ônibus),
circa 1895, óleo sobre tela, 59 x 41cm
Galeria Félix Vercel, Paris
Nosso mérito, se existir algum, consiste talvez em que tenhamos aceitado as expressões mais heterogêneas, quando elas eram sinceras.
(Vuillard)

















dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin
dezinfluênciasmaisuma 4: Monet
dezinfluênciasmaisuma 5: Nine



Maurice Denis, les Arbres verts ou les Hêtres de Kerduel 
(as Árvores Verdes ou as Castanheiras de Kerduel),

1893, óleo sobre tela, 46 x 43cm
Coleção particular


Félix Valloton, le Bon Marché (a Pechincha),
1898, detalhe de um tríptico em óleo sobre cartão
70 x 50cm (cada parte), coleção particular


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Marsupilami


Uli Meyer nos escreve que um desenho original de Franquin, uma capa do Trombone Illustré de 1980, foi vendida nesta semana em Paris, em um leilão, por 153 mil dólares. 
O desenho original de Franquin, a nanquin, no lado direito.
À esquerda, a cor que era feita separadamente e acrescentada nas páginas impressas.


Curiosa e um pouco mórbida essa idéia de valorização financeira de uma obra de um artista morto. Ainda mais se considerarmos que nem mesmo valor artístico (para os críticos e marchands que ditam o que é Arte) esse desenho tinha quado foi feito, trinta anos atrás: - um cartum, capa de um suplemento em uma revista em quadrinhos infantil. 
Alguns anos antes ainda de ter desenhado essa peça, na década de 60, Franquin simplesmente jogava seus originais fora, ou os dava de presente com facilidade.

O valor financeiro de uma peça original de arte é apenas resultado de especulação e jogadas oportunas?

Sugiro que assistam um filme dirigido e co-escrito por Tim Robbins em 1999, Cradle Will Rock (no Brasil, O Poder Vai Dançar). Baseado em fatos reais, sugere que as opções estéticas da dita ARTE que se acha importante (Essa que gosta de Bienais, de teorias críticas intencionalmente incompreensíveis, poder, status e principalmente DINHEIRO) foram manipuladas pelo poder econômico na primeira metade do século XX, para a esvaziar de seu conteúdo político de reinvidicação socialista que emergia então. 
O filme documenta o pintor mexicano Diego Rivera, herdeiro da arte mural política de seu país, que pintou um mural provocativo no Rockefeller Center, que incluia, entre outras coisas, um retrato de Lenin. O mural foi destruído: fato. Mas se a opção pelo abstracionismo nasceu de uma tentativa de esvaziar o conteúdo simbólico da arte de então, isso é especulação. 

E se chama a atenção que o desenho inicialmente desimportante de Franquin passe a valer tanto trinta anos depois, é ainda mais singular e mórbido, passados 80 anos, o que aconteceu com toda aquela sêde de justiça social dos movimentos dito socialistas. É o melancólico desembocar da China em capitalismo de Estado, onde o governo é o patrão escravagista. E o patético e ainda muito mais mórbido Brasil, controlado por sindicalistas, mantidos por contribuições obrigatórias (extorsões legais) para sindicatos que não fazem nada. Governantes pelêgos que andam de braços dados com banqueiros, em um país com a taxa de juros mais alta do mundo. Uma população que opta pela ignorância com a convicção de Herodes. De todo aquele sonho, discursos e sangue que moveram os movimentos sociais, fica essa sensação meia boca de que o ser humano não vale nada mesmo, é fundamentalmente egoísta, corrupto, e sempre seduzido pelo poder de dominar os outros.

Será mesmo que não valemos nada? O Franquin me faz pensar (singelamente) o contrário.

Voltando a ele: Sempre desenhou pelo prazer de dar prazer. Principalmente às crianças. Gostava de fazer rir. Dedicava-se horas a isso, quase febrilmente. Certamente não pensava em ficar rico. O que se pagava pelas páginas de quadrinhos que fazia, permitia que sobrevivesse dignamente, e só. Franquin era um ser humano movido pelo amor que sentia pelo seu trabalho, pelas crianças que o liam e pelos animais que caricaturava tão bem.
Capa do álbum de 1953



Entre suas criações estava o Marsupilami. Criou o personagem, um animal imaginário, das imaginárias selvas tropicais da Palômbia, para uma aventura de Spirou et Fantasio, Les Héretiers, publicada em capítulos semanais na revista Spirou. O Marsupilami surge nos quiosques de revista em 31 de janeiro de 1952. E a história é publicada pela primeira vez, completa, em álbum, no ano seguinte.



Os direitos do herói Spirou pertenciam à Editora Dupuis, mas Franquin consequiu negociar para manter para si os direitos do personagem de cauda longuíssima. Seguiram-se diversos álbuns entre participações nas aventuras de Spirou e pequenas aparições em Gaston Lagaffe. Um primo do Marsupilami, desenhado por Jijé faz uma aparição surpresa em Blondin et Cirage. E, finalmente, em 1987, uma série de álbuns solo que, à exceção do primeiro, foram apenas roteirizados por Franquin. 
Capa do álbum de 1960




De tudo, talvez o que tenha marcado mais seja um álbum da série Spirou et Fantasio, em forma de pseudo-documentário, que narra no melhor formato National Geographic, a poética e cheia de gags vida de uma família de marsupilamis selvagens em seu ambiente natural, Le Nid des Marsupilamis.


Em 1993, Franquin negocia com os estúdios Disney os direitos do personagem para uma adaptação em desenhos animados. A série respeita pouco da criação original e nem mesmo dá o crédito devido ao autor. O desleixo e desrespeito da Disney são pagos no tribunal com a perda dos direitos da adaptação, em 1999, e seu retorno aos herdeiros. Dois anos portanto depois da morte, em 1997, com 73 anos, do belga André Franquin. Que nunca soube que seus desenhos valeriam tanto, nem que conseguiu retomar o controle de seu personagem das mãos da Disney. E nem que continuariam a surgir mais e mais adaptações do seu bicho, a mais recente delas, neste de ano de 2012, uma versão em live action e CG: Houba! Sur la Piste du Marsupilami. Seguem cartaz e trailer do filme, ainda inédito no Brasil:



video

Mas toda tecnologia atual não supera o brilho simples dos traços em papel dos desenhos originais:

1955, Les Pirates du Silence
prancha 9 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1960, L'Ombre du Z
prancha 14 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1968,  série Vie et moeurs du Marsupilami
cartão postal

1974, Tembo Tabou
vinheta de canto de página do álbum

1977, Houu Ba!
primeira publicação no Trombone Illustré Spirou 2031

Então, e isto aqui agora é só uma opinião pessoal, toda a valorização econômica dos desenhos originais de Franquin não aumentaram pra mim seu valor intrínseco. Eles sempre tiveram um valor imensurável, pelo amor simples com que foram feitos. Porque o autor não fez isso porque tivesse em mente um objetivo estratégico de poder, um discurso ideológico ou político. Não fez assim porque seguiu as ordens ou determinações de algum suposto mestre espiritual, uma ordem religiosa ou uma ética coletiva. Fez assim porque ele é um ser humano e quis.
Ser humano assim é bem legal. Tem o maior valor...

Mais sobre Franquin neste link: dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin