quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sandro Cleuzo é homenageado em Firenze.


Quando eu crescer querer ser Sandro Cleuzo.

Um filme de animação pode ser feito de diversas formas, que se assemelham de certa maneira a outras formas de organização humana conhecidas. Uma equipe pode ser como uma pequena banda de jazz que toca ao mesmo tempo e improvisa. Ou como uma enorme indústria automobilística, cheia de operários especializados, trabalhando em uma linha de montagem, a partir de sofisticados projetos de design e engenharia. A maioria do que se vê por aí, no entanto, vai na linha fast food, e no final das contas, a promoção do produto tem muito mais qualidade que o produto em si. Se é que o produto tem alguma...

Os longa-metragens de animação clássica, principalmente aqueles realmente originais e ao mesmo tempo efetivamente capazes de se comunicar com o público, são feitos por equipes que se assemelham a orquestras. 
Em uma orquestra não pode ter músico ruim, tocando fora do tom ou do compasso. Não há como disfarçar um desempenho abaixo do minimamente bom. Quem tem que ter o ouvido pra identificar cada uma das diferentes participações em uma orquestra e corrigir o que é necessário, é o maestro. Essa é a função do diretor em um longa de animação clássico. Identificar o papel de cada artista e saber como integrar com o todo, ao mesmo tempo que percebe aquela fração de tempo dentro da peça em que algo pode ser valorizado e se destacar.
E na orquestra há os solistas. São aqueles musicistas que em um determinado momento executam a melodia principal, sozinhos ou acompanhados, carregando com eles o foco da peça. Assim são os animadores principais em um desenho animado, que sustentam a essência mágica da animação em seus traços, timing e spacing. Existem muitos animadores bons e medianos. Mas são raros os virtuoses. É preciso muita concentração e dedicação. Pouquíssimo provável acumular a função de diretor e animador principal. A não ser que se ignore a necessidade de ter uma data para terminar o trabalho. Porque enquanto o diretor precisa estar a uma distância segura para enxergar o todo, os animadores principais são aqueles que vão conhecer cada detalhe menor da forma de se mover de seu personagem. Como atores principais encarnando seus papéis, músicos solistas se integrando a seus instrumentos.
Sandro Cleuzo é um desses, dessa tradição de poucos nomes, como Art Babbitt, Milt Kahl ou Bill Tytla

Uma das principais razões de Canta, Ty-Etê! ter ficado bonito do jeito que ficou foi a animação de Sandro Cleuzo. Um prazer enorme trabalhar com ele. Poder discutir os pequenos nuances que fazem tanta diferença e que definem a singularidade de uma animação. 
Em Firenze, na Academia NEMO,
Sandro também ministrou um workshop
de dois dias, para alguns sortudos


Recentemente, Sandro, que está atualmente na Califórnia, USA, trabalhando em uma produção da Dreamworks, merecidamente recebeu uma homenagem na Itália, em Firenze (Florença), uma cidade carregada de simbolismo para as artes de todos os tempos e preenchida de obras primas da Renascença. Segue uma breve conversa com o Sandro:


Sandro: Desculpe a demora pra responder. Mas é que foi uma correria aqui e não parei um minuto. 

Iludente: Que prêmio é esse e qual o motivo de você ter sido escolhido?
Sandro: O Prêmio é chamado Nemoland e foi criado por uma escola de animação e artes visuais que se chama NEMO NT Accademia Delle Arti Digitali, em Firenze (Itália). Juntamente com o apoio da cidade. Todo ano eles realizam o Nemoland, onde homenageiam 2 artistas de várias áreas da indústria de animação mundial. Este ano foram escolhidos eu e o animador Victor Navone, da Pixar. Fui escolhido pelo meu trabalho em geral, pelo minha contribuição para a industria da animação até agora.


Sketchbook lançado por ocasião do prêmio
Iludente: O que pode nos falar do que está fazendo agora?
Sandro: Estou animando no projeto da Dreamworks "Me and My Shadow", um longa que combina animação feita a mão e CGI.  E sobre um rapaz e sua sombra, que tem personalidades diferentes. Os personagens são animados por computador, mas suas sombras são animadas a mão.

Iludente: Planos de projetos futuros?
Sandro: Sim, estou desenvolvendo o projeto de um longa que se passa no Amazonas. Vou tentar ir atrás de financiamento e gostaria de faze-lo no Brasil. Também estou tentando terminar um curta metragem pessoal.


Exposição de trabalhos de Sandro

na Academia NEMO.
Bom, quem quiser conhecer mais do trabalho desse artista genial, tem aqui o endereço do seu blog: Inspector Cleuzo.

Tenho certeza que a cidade de São Paulo ganhou muito ao produzir esse pequeno curta do NUPA, em homenagem ao maior de seus rios. Quem conhece e ama de verdade esta cidade vai concordar comigo. É preciso escrever "ama de verdade" porque Amor é uma palavra fácil de ser usada hipocritamente. 

Canta, Ty-Etê!, um pequenino curta animado por esse artista desta cidade que precisou deixá-la, para que seu talento pudesse fluir. Mas como dizem: - É o Brasil... 

- É o Brasil; foi isso que ouvi outro dia a respeito do melancólico fim do NUPA
Encontrei o Ari Nicolosi (Zica e os Camaleões) na platéia de Reality, longa genialésimo dirigido por Matteo Garrone. Comentei com ele: - Como é que pode um programa como o NUPA, que estava abrindo espaço e acesso de verdade na periferia da cidade, realizando filmes significativos, alavancando a indústria de animação brasileira, criando oportunidades profissionais reais para jovens, fazendo os melhores artistas da cidade interagirem e deixarem sua marca no acervo material e imaterial brasileiro, lançando novos talentos, discutindo de forma aberta e democrática temas relevantes, sendo socialmente justo e antenado pacificamente nas necessidades do seu tempo, acabar assim? 
Pois é. A resposta do Ari disse tudo: - É o Brasil...


É a Itália:
O Nemoland 2013
e os artistas homenageados,
na imprensa da Itália.


É os Estados Unidos: 
Cartaz do longa
em produção nos Estados Unidos,
com equipe da qual faz parte
o artista Sandro Cleuzo.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Buddha na Floresta dos Cervos


ELE diminuiu os passos até parar, enquanto pensava no que diria a ELA. Voltou e a abraçou pelas costas. ELA escovava os dentes enquanto olhava ELE, de olhos fechados, refletido no espelho, dizer:
- Se existir um lugar que seja realmente o Paraíso. E se eu merecer estar um dia nesse lugar. Esse lugar só será mesmo o Paraíso se lá eu encontrar você.

ELE realmente disse isso porque acreditava completamente no que havia dito.
ELA sorriu com a boca cheia de pasta de dente e espuma e pensou que isso realmente era uma DECLARAÇÃO DE AMOR.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Homem da Lanterna Mágica



Frame de trecho da participação de Roberto Miller em Planeta Terra








É impossível contar corretamente a história da animação brasileira sem falar do cineasta Roberto Miller.

Miller nasceu em 1923, na cidade de São Paulo, filho de um português correspondente da Reuters no Brasil. Seu nome de registro era Ignácio Maia, mas fez sua carreira chamando-se Roberto - Miller, vindo de seu ídolo da juventude, o músico Glenn Miller


Influenciado pelo escocês radicado no Canadá, Norman McLaren, de quem torna-se discípulo e amigo, marca seu estilo com animações abstratas, desenhadas com pincel e lupa diretamente em película de filme de gelatina removida. 

Sua pesquisa realiza-se principalmente nos aspectos sonoros, rítmicos, de sincronismo e forma, seguindo a tradição dessa técnica criada originalmente pelo neozelandês Len Lye e inspirada pelo movimento alemão do Cinema Absoluto. Esse movimento de animação abstrata (ou não-objetiva) aconteceu na década de 20, representado por artistas como Oskar Fischinger, Hans Richter, Viking Eggeling e Walter Ruttmann. Este último definiria o estilo como "pintura no tempo". 

O impulso fundamental para a carreira de Miller é um estágio de seis meses no National Film Board do Canadá, com McLaren, na década de 50. De volta ao Brasil integra-se ao recém fundado Centro Experimental de Cinema de Animação de Ribeirão Preto, fundado por Rubens Lucchetti e Bassano Vaccarini. Ali realiza Sound SyntheticTill Ton Special, Rock and RollSinfonia ModernaSound Abstract.

A consagração vem com Rumba (1957): medalha de prata no festival de Lisboa.

Entre outros filmes, destacam-se a partir daí: Sound Abstract (medalha de prata no festival Bruxelas/1957, prêmio Saci de São Paulo/1958 e menção honrosa no festival de Cannes/1958), Boogie Woogie (menção honrosa no festival de Cannes/1959), O Átomo Brincalhão (1967), Balanço (1968), Carnaval 2001 (1971), Can-can (1978), Ballet Kalley (1981) e Biscuit (1992).

Miller também fará carreira na criação de títulos de abertura de filmes
Planeta Terra
brasileiros, o que se chama hoje de motion film design. Mas marcou mesmo a minha infância e formação como artista de animação com o programa de tv, produzido pela então mais séria TV Cultura de São Paulo, Lanterna Mágica.


O programa, semanal, era o espaço alternativo para se conhecer a animação canadense, européia, asiática e mesmo a produção da UPA. Ali conheci Co Hoedman, Jiri Trnka, Lotte Reiniger, Escola de Zagreb, John Hallas, McLaren, etc. Fiquei sabendo do brasileiro Yppê Nakashima e por isso fui ao cinema, garoto, vibrar com Piconzé. Durante um período também, próximo ao horário do Lanterna Mágica, era exibida a série clássica de Tezuka: Kimba, o Leão Branco. Ou seja, Roberto Miller abriu as portas das infinitas possibilidades da animação para toda uma geração que não fosse isso estaria limitada a uma reduzida visão conformista. Muchas gracias, Mestre!

Em 1985, dividi com Marcos Magalhães a coordenação da produção do filme coletivo brasileiro Planeta Terra. Marcos ficou com os artistas do Brasil todo, menos São Paulo, que ficaram sob minha responsabilidade. 18 dos 30 artistas eram paulistas. E entre eles, Roberto.
Foi uma delícia poder conhecê-lo e dividir com ele a tela de um filme tão

singular. Para quem quiser conhecer esse filme, colocamos ele no Canal NUPA. Clique na imagem ao lado e aproveite. Ainda quero dedicar um post especificamente pra esse filme, cheio de histórias. Mas é bom lembrar que, além de já ter seus quase 30 anos de idade, foi feito antes da tecnologia digital. Como eu costumo dizer, animação de apaixonado, feita na unha. Não havia glamour em fazer desenho animado. Era coisa de gente fora do eixo mesmo.

Em 1988 fui diretor e organizador do Segundo Encontro Nacional de Profissionais de Animação. Propus e todos aceitaram que criássemos um troféu da própria classe, para homenagear os profissionais que mais tivessem contribuído para a animação brasileira. O nome escolhido para o prêmio foi Lanterna Mágica. E o ganhador, claro, Roberto Miller.



Planeta Terra
Miller morreu dia 16 de Março passado, aos 89 anos. Deixando viúva, dois filhos e duas netas. Um grande artista pra ser lembrado e homenageado sempre.