segunda-feira, 25 de outubro de 2010

2D: O Equívoco sem Profundidade.



Recebi dia 4 de Outubro a mensagem a seguir, do Márcio Rocha:


Olá Céu,
Tudo bom?
Consegui teu e-mail através de um amigo - Flávio Mota.
Estava perguntando a ele sobre uma pesquisa que preciso fazer para a Faculdade. O Tema é “design de personagens na animação 3d”, onde procuro abordar a importância do desenho 2d para a animação 3d.
Estou a procura de alguma material – não apenas na internet, mas também livros que abordem o tema. Ele me disso que talvez você pudesse me indicar alguma coisa, algum livro. Tenho pesquisado nas bibliotecas, mas não encontrei nada muito interessante. Talvez precise comprar algum livro. Aqui em Sorocaba as livrarias são tão “pobres” de conteúdo.
Poderia me ajudar? Aguardo resposta.
Abraço Ceu.
P.S. Curto muito teu trabalho.
--
Márcio Rocha





Márcio e leitores do Iludente,


Já escrevi antes sobre isso aqui no blog, e quem acompanha o Fazendesenhanimado no NUPA/CCJ já me ouviu falar muito isso: Não tem nada a ver usar esse termo "desenho 2D". É um equívoco, e que traz consequências ruins. O Gene Deitch começou uma campanha nos EUA pra se parar com isso e lá já começa a surtir efeito:





Os meus argumentos:


1- Inventaram esse termo 2D a partir da ótica da animação por síntese de imagem (chamada popularmente de computação gráfica ou CG) 3D. Ou seja, ninguém chamava desenho animado de 2D antes. Aí as pessoas do CG3D inventam uma terminologia pra eles e resolvem, por conta deles, que desenho animado tem um D a menos e é 2D.


2- O "D" é de dimensão. 3D, três dimensões: largura, altura e profundidade. Mas quem falou que desenho animado clássico não tem essas 3 dimensões? Desenho bi-dimensional é aquele dos hieróglifos egípcios. Desde Leonardo Da Vinci, que estabeleceu as regras da épura, que o desenho clássico tem três dimensões e portanto, perspectiva.


3- Tanto o desenho animado como o CG3D são criados e projetados em uma tela plana. Tanto que agora o CG3D está em uma nova sinuca de bico: Popularmente 3D não é mais o CG3D mas a projeção estereoscópica. 


4- O Alceu da Vetor Zero argumentou comigo que você pode girar em volta de uma animação ou modelo CG3D. OK. É verdade. Mas pra que serve isso, na prática, em uma produção? Pra criar mais problemas. Um filme é planejado na fase de story board, pra não se mudar a posição da câmera, o que sempre encarece e atrasa um trabalho. Mudar a posição da câmera depois do filme pronto não é sinal de boa direção. 


5- Além disso, TAMBÉM pode-se girar a câmera em volta da maquete e dos personagens em stop-motion. Mas nem por isso chama-se a técnica stop-motion de 3D. Porque a essência da técnica stop-motion é... o stop-motion! Não o fato de ser 3D. Então, voltando ao primeiro argumento, a essência do desenho animado é ser feito em... desenhos! Então esse é o nome: Desenho Animado. Ou Desenho Animado Clássico ou Tradicional, se quiser diferenciar um pouco mais. É melhor portanto que pare-se com essa história de querer uma supremacia do CG3D e a partir dele renomear o desenho animado, que já existia antes, já tinha seu próprio nome, e que também tem as três dimensões.


6- Fala-se que o desenho animado está com seus dias contados, ou que já acabou. Não é verdade. O que de fato aconteceu é que o fechamento do estúdio de animação clássico da Disney nos EUA (que reabriu depois pra fazer A Princesa e o Sapo), foi entendido por investidores como o fim do desenho animado tradicional. Mas investidor entende "ganhar dinheiro" e não o que é filme bom ou animação. Além disso, o que estava bombando naquela época eram os desenhos da Pixar (distribuídos pela Disney) e o Shrek da Dreamworks. E isso foi entendido por investidores como um sinal de que o CG3D estava substituindo o desenho animado tradicional. Mas um monte de filmes em CG3D, inclusive feitos pela Disney, também foram ruins comercialmente logo em seguida. Ou seja: técnica não é garantia de filme bom e muito menos de sucesso comercial. 


7- Ao contrário, até o presente momento, a animação para TV mais popular entre as crianças é em desenho animado: SpongeBob. E as animações adultas (ou prime time) mais populares também: The Simpsons e Family Guy. E o autor de longas mais festejado como inovador, faz desenho animado a mão: Hayao Miyazaki. 


Bom, respondi ao Márcio Rocha a questão do equívoco "animação 2D". Mas ele na sua mensagem escreveu "desenho 2D". É um prolongamento do equívoco, percebem? Se eu tiver sido claro no meu argumento número 2, não existe desenho clássico 2D. 


E aí, procurando responder especificamente sua pergunta, não tem como dizer da importância do desenho 2D pra animação 3D. O que tem é a importância do planejamento no papel antes de se começar a produzir o filme. E são os bons desenhistas, que entendem tudo de épura, anatomia, personalidade, expressão, design, estilo, movimento, recursos da animação, acting, timing, etc que são fundamentais para executar essa etapa, como por exemplo:


Jason Deamer em Ratatouiile


Nico Marlet em How to Train Your Dragon


Craig Kellman em Madagascar




Peter de Seve em Ice Age


E muitos outros...
Desconheço livros editado em português sobre o assunto. Aliás, de modo geral, não há quase nada em português sobre animação.
O ponto de partida que recomendo para pesquisar sobre o assuto é este blog: http://characterdesign.blogspot.com/
E olhem este aqui também:
http://animationbgs.blogspot.com/

Desejo ter respondido a pergunta do Márcio e esclarecido o melhor possível o assunto para os interessados.
A propósito, não sou defensor de nenhuma técnica de animação. Não acho que nenhuma técnica é melhor do que outra. Animação é uma arte coletiva. Tudo contribui e agrega. 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Santa premiação, Batman!!!


Eu sempre acompanho a premiação do IgNobel. É um prato cheio pra quem faz animação... Confira a matéria de Carlos Orsi, do estadão.com.br, de 30 de setembro de 2010:


Sexo oral entre morcegos e vida corporativa são estrelas do IgNobel

Premiação chama atenção para 'descobertas que fazem as pessoas primeiro rir, depois pensar'

"Felação entre morcegos frugívoros prolonga a duração da cópula" é o título do artigo científico que levou uma equipe de cientistas chineses e britânicos a receber o Prêmio IgNobel de Biologia de 2010. Gareth Jones, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, deve comparecer ao ao Teatro Sanders, da Universidade Harvard, nos EUA, para receber a honraria na vigésima cerimônia da premiação, que, segundo seus idealizadores, busca chamar atenção para "descobertas que fazem as pessoas primeiro rir, depois pensar".

Outro destaque da premiação é um artigo de pesquisadores italianos que buscaram uma forma de escapar do chamado Princípio de Peter. Proposto pelo psicólogo canadense Laurence Peter, o princípio costuma ser resumido na afirmação de que, em toda hierarquia, os indivíduos tendem a ser promovidos até atingir "seu nível máximo de incompetência".

"Embora pareça pouco razoável", escrevem os agraciados no artigo "O Princípio de Peter Revisitado: Um Estudo Computacional", "o princípio funcionaria realisticamente em qualquer organização onde o mecanismo de promoção premia os melhore membros" e onde as tarefas do nível superior são muito diferentes das do nível inferior.
O resultado é uma perda de eficiência da organização, que deixa de contar com um ótimo funcionário no nível abaixo e passa a contar com um funcionário medíocre ou ruim no nível acima. "Dentro de uma abordagem de teoria dos jogos", prosseguem Alessandro Pluchino, Andrea Rapisarda e Cesare Garofalo, da Universidade de Catânia, na Itália, "descobrimos contraintuitivamente que, para evitar tal efeito, as melhores formas de melhorar a eficiência de uma dada organização é ou promover a cada oportunidade um agente ao acaso ou promover aleatoriamente o melhor e o pior membro, em termos de competência".

Um grupo de pesquisadores japoneses volta para receber seu segundo IgNobel. Depois de serem agraciados em 2008 com o prêmio de ciência cognitiva pela descoberta de que o limo é capaz de resolver labirintos, Toshiyuki Nakagaki e Atsushi Tero recebem agora a honraria na categoria de Planejamento de Transportes, como membros da equipe que demonstrou o uso do limo na determinação de rotas para linhas ferroviárias.

Por sua vez, o Prêmio IgNobel da Paz vai para três britânicos que confirmaram a crença popular de que gritar palavrões ajuda a diminuir a dor.

O lado francamente satírico do prêmio aparece no de Química, concedido pela descoberta de que "óleo e água se misturam". Ele será concedido a dois cientistas americanos - que realmente trabalharam num estudo a respeito -, mas também à BP, empresa responsável pelo gigantesco vazamento de petróleo no Golfo do México.

Já o IgNobel de Economia vai para os administradores das empresas Goldman Sachs, AIG, Lehman Brothers, Bear Stearns, Merrill Lynch e Magnetar, "por criar e promover novas formas de investir dinheiro - que maximizam o ganho financeiro e minimizam o risco para a economia mundial, ou para uma porção dela". Essas empresas tiveram um papel central na crise econômica que ainda atinge os EUA e a Europa.
Outros prêmios deste ano vão para uma equipe de cientistas britânicos e mexicanos que inventou um helicóptero teleguiado para coletar amostras de secreção nasal de baleias; para dois cientistas holandeses que provaram um passeio de montanha-russa alivia os sintomas da asma; para duas pesquisadoras neozelandesas que demonstraram que usar as meias para fora do sapato reduz o risco de escorregar e cair na neve; e para três americanos que provaram, por meio de experimentos, que micróbios se agarram a cientistas barbados.
A cerimônia do IgNobel tem transmissão ao vivo pelo YouTube, e ficará disponível online em http://www.youtube.com/improbableresearch. O prêmio é uma promoção da revista Annals of Improbable Research (AIR), que se define como um periódico de "humor científico". Como já é tradição, a cerimônia tem um tema, que será refletido em duas apresentações musicais. O deste ano é "bactéria".
Os ganhadores que forem a Harvard receber o prêmio - segundo a AIR, autores de oito dos dez trabalhos ganhadores confirmaram presença - terão a honraria concedida por vencedores do Nobel. Farão a entrega do IgNobel Sheldon Glashow (ganhador do Nobel de Física em 1979); Roy Glauber (Física, 2005), Frank Wilczek (Física, 2004), James Muller (Paz, 1985) e William Lipscomb (Química, 1976).