sábado, 27 de março de 2010

Glauco: 1 minuto de silêncio



Na abertura da Biblioteca Jayme Cortez, dia 20 de Março, com a comunidade gráfica de São Paulo reunida uma semana depois do assassinato de Glauco e seu filho Raoni, não havia como não trazer o assunto.
Convidei o Orlando pra conduzir um minuto de silêncio e ele trouxe o texto abaixo:


foto: Regina Elias




De Orlando Pedroso:


Dizem que para um avião cair, precisa haver a coincidência de pelo menos 5 erros. Parece ser também o caso da triste e violenta morte do cartunista Glauco e de seu filho Raoni ocorridas na semana passada.
Não cabe a nós aqui, agora, listar quais os erros que culminaram nesse drama de tamanha proporção, nem buscar os culpados de mais uma tragédia como tantas que acompanhamos diariamente nos noticiários.
Talvez este seja o momento de listarmos os acertos, especialmente porque foram conduzidos pelo talento e pela coragem. Uma coragem inconsciente, é verdade, mas ainda assim coragem. O Glauco não sabia fazer de outra forma porque era movido quase que instintivamente a agir e criar sem as amarras ou limitações sociais que norteiam o mundo adulto. Ele criava como se fosse uma criança e fazia assim porque era o que ele tinha que fazer.

Em 1978 eu estava terminando o colegial, era um aspirante a ilustrador, cartunista e acompanhava a segunda fase do Pasquim, a reforma gráfica do Jornal da Tarde e, claro, a página Vira-Lata publicada no suplemento Folhetim, da Folha de S.Paulo e editada pelo Angeli.
Lá estavam, além do próprio Angeli, Laerte, Alcy, Nilson, Jotinha e outros que aproveitavam o início da abertura política para espinafrar o que ainda sobrava da ditadura militar. Era um humor pesado, rancoroso e engajado. Era.
Nesse ano surgiu nas páginas do Vira-Lata um outro desenho, um outro humor. Aliás, um humor engraçado, leve, cheio de movimento e delicadeza. Era o Glauco que trazia novos ares e um espírito que iria mudar de vez a forma de se trabalhar a charge e o cartum na imprensa brasileira. Esses cartuns não respeitavam nada. O preso passava o pé na bunda do guarda, a menina deixava escapar na mesa do almoço que fizera um aborto dias atrás ou que tinha vários namorados, o defensor do feminismo pedia para a namorada pagar a conta do restaurante e o guardinha de trânsito botava ordem no cruzamento onde havia uma passeata vindo de cada lado.
O peso de se fazer uma charge desaparecia e se tornava algo prazeroso e divertido.
De 79 a 81 tive o prazer de passar algumas madrugadas acompanhando o fechamento das edições do Folhetim na sala onde também estavam o Fortuna, Faustinho, Maringoni, Luiz Gê.
Em 1983 ele passou a publicar o Geraldão na sessão de tiras do jornal. O primeiro de uma série memorável de personagens que passariam a fazer parte da história dos leitores da Folha assim como de milhares de jovens que passavam a consumir o novo quadrinho que surgia.
Em 1985 voltei a encontrar o Glauco na redação. Pouco depois ele passaria a fazer as charges. "E aí, panga?" Era como ele chegava nos colegas antes de desfiar um rosário de piadas e expressões sempre particulares e muito engraçadas. Eram, muitas vezes ingênuas, quase infantís mas sempre imprevisíveis e, provavelmente, não há pessoa que tenha trabalhado ou convivido com ele que não tenha pelo menos uma dezena de pequenas histórias tendo o Glauco como personagem.
Gênio, amigo, figurinha carimbada, nosso John Lennon, não importa. O que fica agora é sua obra, a capacidade de contar a mesma piada centenas de vezes e de ela ser sempre boa, o talento de ter conseguido empurrar ladeira abaixo velhos padrões de comportamento e de conseguir com seu traço econômico que nosso mundo, o dos leitores, se tornasse muito melhor.
Peço a todos um minuto de silêncio em homenagem a Glauco e Raoni Villas Boas.
 




Orlando também está organizando uma coletiva pro Glauco: FALA, PANGA!

De 30 de Março a 30 de Maio de 2010, na Pizza do Baboo, Rua Joaquim Antunes, 824 - Pinheiros, São Paulo, SP.
FALA, PANGA era a maneira como o Glauco se dirigia aos amigos, especialmente os da redação.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Agora é história



Pronto. A Biblioteca Jayme Cortez foi inaugurada com tudo e todos que tem direito. Até tirei o pó de meu B&H 16mm e projetamos um documentário rodado na década de 70 com o Jayme. 
Abaixo seguem algumas imagens da instalação que ainda está na Biblioteca e uma caricatura do Jayme inédita (por mais uns dias), pelo Cárcamo.









esq>dir: Leandro Benetti (diretor do CCJ), Jaime Cortez (filho do Jayme), Edna Cortez (viúva) & Dolores Biruel (bibliotecária da BP Jayme Cortez)


esq>dir: Gual, Jal, Orlando Pedroso, Gabriel Bá, Roberto Santana


tudo ao mesmo tempo agora


reunião pública ADG, SIB, IMAG, Sketcheria, ACB & Núcleo Paulistano de Animação para discutir rumos da preservação e exposição de originais em São Paulo


Álvaro de Moya conta causos

fotos: Regina Elias

sábado, 13 de março de 2010

Biblioteca Jayme Cortez



No próximo sábado acontecerá a nomeação da biblioteca do CCJ, que passará a se chamar Biblioteca Pública Jayme Cortez. Além de ser uma homenagem a este artista gráfico, quadrinista, ilustrador, diretor de arte e principalmente, incentivador e mestre de muitos outros artistas, é o reconhecimento da importância da contribuição do design gráfico, ilustração, cartum e quadrinhos para a literatura, comunicação e cultura.

Até onde sei é a primeira biblioteca pública no Brasil a receber o nome de um artista do design e ilustração. E por isso desejo que todos desta comunidade artística resolvam comparecer e prestigiar seu próprio espaço.

Na ocasião a Biblioteca também receberá uma HQteca, uma instalação com reproduções de trabalhos do Jayme e uma placa comemorativa (o texto da placa está no final deste post).
Uma reunião aberta, com representantes da ADG, SIB, IMAG e convidados, discutirá a criação de um Museu Municipal para estas artes.

Também acontecerá uma palestra de Álvaro de Moya, sobre o Jayme e a Primeira Exposição Internacional de Quadrinhos. Nem todo mundo sabe, mas muito antes de Lucca, Angoulême ou San Diego, o Brasil abrigou, na década de 50, a primeira exposição internacional que ousou colocar páginas de HQ no lugar da roda de bicicleta do Duchamp. 

Segue o convite e, mais abaixo, o texto da placa:

CONVITE

O Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso,
da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo,

convida você, suas amigas, amigos e familiares, para a reabertura e nomeação da

BIBLIOTECA PÚBLICA JAYME CORTEZ




Sábado, 20 de Março de 2010

11h – Cerimônia de nomeação e reinauguração
14h – Debate: Criação do Museu de Artes Gráficas
15h – Jayme Cortez, palestra de Álvaro de Moya


A homenagem a Cortez é também reconhecimento da importância das artes da ilustração, quadrinhos, cartum e design gráfico na literatura e em toda cadeia produtiva da comunicação e cultura.



CCJ
http://ccjuve.prefeitura.sp.gov.br
Av. Deputado Emílio Carlos, 3641 – Vila Nova Cachoeirinha
(11) 3984 2466
(ao lado do terminal de ônibus Cachoeirinha)

(clique no mapa para aumentar a imagem)







Jayme Cortez Martins
Jornalista, ilustrador, quadrinista e diretor de arte.

Iniciou sua carreira no jornal O Mosquito, em Portugal (1944).
Chegou ao Brasil em 1947. Começou desenhando tiras para jornais, ilustrações para A Gazetinha e revistas da Editora La Selva.
Realizou com Álvaro de Moya, Reinaldo de Oliveira, Miguel Penteado e Sillas Roberg a histórica Primeira Exposição Internacional de História em Quadrinhos (1951). Visionário, publicou a primeira revista de Mauricio de Sousa (1959) e deu aulas de ilustração na Escola Panamericana de Artes (1962-1964). Diretor de Criação publicitário durante 12 anos (1964-1976).
Lançou Zodiako, seu mais famoso personagem (1974). Foi responsável pelo departamento de criação de merchandising e de animação dos estúdios Mauricio de Sousa (1976-1982).
Ainda durante sua carreira publicou quadrinhos na Europa, fez as capas dos livros de José Mauro de Vasconcelos para a editora Melhoramentos. Ilustrou cartazes de Mazzaropi e Zé do Caixão, além de realizar versões brasileiras para cartazes de filmes internacionais. Em sua homenagem o Banco Itaú criou o Prêmio Jayme Cortez para a melhor ilustração de cartaz de cinema (1977).

Foi aclamado por artistas como Will Eisner, Stan Lee, Burne Hogarth, entre outros.
Mestre de gerações, publicou três livros sobre desenho e ilustração, participou de inúmeras exposições e congressos sobre quadrinhos e ilustração, no Brasil e no exterior, onde defendeu, incentivou e divulgou nosso talento.
Fundou e presidiu o Clube dos Ilustradores do Brasil (1982) e recebeu da AQC o prêmio Angelo Agostini (1985). Homenageado no Lucca 20 com o prêmio Caran D’Ache “Por Uma Vida Dedicada à Ilustração” (1986).

A seu respeito disse Pietro Maria Bardi: “É um desenhista de comunicação de massa e se coloca entre os mais preparados e capazes, mestre na difícil tarefa de fazer-se entender sem subterfúgios.”

Nasceu em 8 de setembro de 1926, em Portugal, e faleceu em 04 de julho de 1987, em São Paulo.

A homenagem a Cortez é também reconhecimento da importância das artes da ilustração, quadrinhos, cartum e design gráfico na literatura e em toda cadeia produtiva da comunicação e cultura.


Agradecimento: Família Jayme Cortez, Álvaro de Moya, Fabio Moraes, Franco Rosa & Jal



sexta-feira, 5 de março de 2010

There is a party



There is a party.
Everyone is there.
When this party's over, it will start again.
It will not be any different, it will be exactly the same.






"Heaven" (Harrison & Byrne)