sábado, 23 de janeiro de 2010

O MÁXIMO


                                                                                                               


Eu tinha todos os títulos pra escolher e todos seriam O Máximo. É a confiança na vida e a mais profunda concentração na dança.
Os Fortes são realmente fortes e bizarros. Diante dos deuses atrozes são bárbaros, inimigos ferozes. Do inesgotável desenho animado. Dos traços humanos, tão desesperados, dentro entorno do homem quebrado rodam os fracos aos pedaços. Pedaços de homens derrotados. E mulheres aos pedaços. Pisoteadas, meditabundas, neurastenicas e ultrajadas.
Quem é Fraco não ataca. O fraco é aquele que não fere ninguém. No máximo o fraco recebe um pedaço de pão. Na cara.
Até Deus tem o seu inferno. Seu inferno é seu Amor aos homens. 
Eu prefiro gostar de outra gente. Quiz e quero criaturas valentes. Procuro e encontro pessoas, saindo de outras pessoas. Hebreus, romanos e zulus. Ets, aztecas e germânicos. Mau-maus e os esquimós. Heróis homéricos e nós. Pigmeus, chineses e cubanos. Polacos, ciganos e javaneses.
Até Deus tem o seu inferno. Seu inferno é seu Amor aos homens. Eu tinha todos os títulos pra escolher.
E todos seriam O MÁXIMO.


(Hamilton Vaz Pereira)


A primeira foto, feita na Raposa Serra do Sol, em Roraima é do fotógrafo Luiz Vasconcelos, via World Press. A foto seguinte é minha. Nos Himalayas indianos, perto de Rudraprayag. Carregando seu filho nas costas, a mãe trabalha quebrando pedras na obra de pavimentação da estrada. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Asterix no Brasil

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I


A GRANDE TRAVESSIA*IX

Traduzir Asterix não é uma tarefa tão fácil. Goscinny gostava muito de fazer jogos de palavras, absolutamente intraduzíveis. Da mesma forma, Uderzo desenha muitos de seus personagens como caricaturas de personalidades francêsas desconhecidas no Brasil.
Ainda assim, é a parte universal do tão regional Asterix que cativa todos os leitores, inclusive os brasileiros. Em uma edição deste ano (2001, quando foi escrito este texto), a revista “República” fez referência a Asterix em sua capa. Confirmando o significado iconográfico de Asterix, a revista representou o presidente dos Estados Unidos como Júlio César e sua legião, e o presidente Fernando Henrique e sua equipe econômica como Asterix e seus amigos. Uma clara referência à globalização e a resistência (bem menos irredútivel) da frágil aldeia.
Asterix é um marco internacional dos quadrinhos. É um clássico da década de 60 e 70, com suas vinte e quatro aventuras . Os sete álbuns produzidos em solo, por Uderzo, entre 1980 e 2001, são bastante diferentes dos anteriores e dividem opiniões. Mas Asterix já conquistou seu espaço definitivamente na história da literatura gráfica.
Através da obra de Goscinny e Uderzo, o leitor brasileiro se inicia em uma linguagem de história em quadrinhos, o estilo europa. O conhecimento dessa linguagem permite o acesso a diversos outros autores, de todo o mundo, igualmente importantes, que também trabalham com a mesma linguagem.
E direcionada a outros objetivos que nem sempre o humor. Além dos citados anteriormente, temos também, por exemplo, Tardi, Moebius, Hermann, Cosey, Jodorowsky, Cadelo, Fred, Chaland, Boucq, Cabanes, Meziéres, Christin, Yann, Pratt, Swarte, etc e etc. Um universo que se desdobra em crítica social, registro histórico, ficção científica e poesia. Trabalhos que envolvem  elaborada pesquisa gráfica e narrativa.
A tradicional forma estadunidense de quadrinhos, os “comics”, com seus super-heróis hipertróficos  que vivem dramas como “minha namorada brigou comigo ontem porque não pude ir no cinema com ela porque estava salvando o planeta” sofreram influência do estilo europa a partir dos anos 70.
Já na década de 80 os comics estadunidenses evoluiram para formas gráficas mais sofisticadas. Ou ainda, por desenvolvimento do underground dos EUA e por influência do estilo europa, fizeram evoluir uma nova tendência chamada pós-literatura, representada por autores como Spiegelman, Sacco, Jeff Smith, Allred e os irmãos Hernandez, por exemplo.
Para os autores brasileiros de quadrinhos, conhecer essa diversidade é uma forma de enxergar além do universo limitado dos super-heróis. O fato de Asterix ter conquistado o sucesso inicial em seu país,incluindo raízes folclóricas francêsas em seus ingredientes, é um dado a se considerar. Fazer quadrinhos pode ser mais do que fazer histórias de gente musculosa que solta raios.
Também é interessante que Asterix tenha conquistado um público de todas as idades. Seus autores conseguiram produzir uma obra que é igualmente interessante para crianças e adultos. Isso demonstra que é possível produzir um trabalho adulto, sem se fixar  obrigatoriamente em sangue, sexo, cinismo e depressão.

I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça.
Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.

IX-A GRANDE TRAVESSIA Título da vigésima segunda aventura (1975). O que se atravessa, no caso, é o Oceano Atlântico. Asterix, Obelix e Idéiafix chegam à América quinze séculos antes de Colombo. Acham que os índios são um tipo de romano da Trácia e voltam para casa, indiferentes.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A folha vai. A noite ia.



EPIGRAMA N.o 9
O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?

ALTA NOITE
Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia, ninguém com os pés na água.
Nenhuma pessoa sozinha ia, nenhuma pessoa vinha.
nem a manhãzinha, nem a madrugada,
nem a estrela guia, nem a estrela d’alva,
Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia, ninguém com os pés na água.

(Epigrama N.o 9 de Cecília Meireles/ Alta Noite de Arnaldo Antunes)