domingo, 21 de outubro de 2012

Canta, Ty-Etê!


CANTA, TY-ETÊ! está pronto e pode ser visto clicando na imagem abaixo:



O processo de produção deste segundo filme da série Paulicéia, e segunda obra do NUPA a ficar pronta, foi bastante feliz. Seja pelo resultado, seja pela felicidade de todo o processo de produção.


Lay-out de cena entrada motoboy
Primeiríssima decupagem 
do filme,
feita em conjunto com os alunos
durante o workshop
Aprendemos com os erros do primeiro projeto, MÁRIO DE ANDRADE e fizemos algumas correções importantes. No workshop de pré-produção do Laurent Cardon para o Mário, ele ficou muito sobrecarregado. Tinha de simultaneamente dar as aulas e produzir o projeto final de concepção visual. Foi muito estressante e ele só conseguiu chegar no produto final com tanta qualidade porque é muito competente. Para este fime distribuí melhor o pêso do trabalho da oficina. Eu mesmo dei as aulas e o Alê Abreu ficou concentrado em reunir o material dos alunos e dar a forma visual ao filme. Visão genial, diga-se de passagem. Alê é um criador de verdade, buscando no sutil as cores e as texturas. Distribuí a decupagem entre os participantes de uma maneira mais dirigida e de acordo com o talento de cada um. Contou muito o fato dos alunos terem progredido de um ano para o outro e do Alê ter participado das aulas, opinando e tomando conhecimento direto de todas as sugestões.

Lay-out de cena salto Bagre
A produção propriamente foi uma delícia. A palavra pra definir tem que ser essa: DELÍCIA.
O contato com todos os profissionais envolvidos foi sempre de prazer. Possivelmente por serem todos profissionais veteranos seguros, não precisei lidar com narcisismo ou egos inchados. Ao contrário. Desde o trabalho com o Alê, e depois com o Gil Caserta, Sandro Cleuzo e Angelo Bonito, só via o trabalho tomar forma e ficar cada vez mais encorpado, leve e firme. Como um balão. Quando o Fabio Góes incluiu a trilha final e acertamos os últimos fotogramas, o filme simplesmente saiu voando sozinho, iluminando por aí.

Lay-out de cena close Bagre

Trabalhar com o Sandro é um presente. Animou as cenas exatamente no ponto em que precisavam. Sem overacting, mas sem miséria. Na primeira cena que fez precisei indicar algumas pequenas correções para ficarmos mais próximos do design do Alê e ele aceitou sem problemas. Profissional. E depois do ajuste, praticamente não precisei fazer mais observações. Afinou o instrumento e tocou uma animação memorável. É uma pena que não possamos manter um profissional como esse no Brasil. Poucas horas depois de terminar a última cena, Sandro se despediu mais uma vez daqui e viajou para a Califórnia, onde está trabalhando com a Dreamworks. Abaixo ele fala um pouco dessa experiência. Carlos Luzzi ajudou o Sandro de forma eficiente em uma das cenas.


Lay-out de cena fuga Grafiteiros
Angelo Bonito é um conhecido de longa data. Já cruzamos nossos caminhos algumas vezes e ele está sempre melhor. Ilustrador e pintor com conhecimento vasto de todas as técnicas clássicas e das inovações digitais. Para este trabalho tivemos que nos aventurar juntos na marginal Tietê mais de uma vez. Junto com os alunos eu já tinha percorrido diversos trechos do rio, especialmente as diferentes pontes, pela necessidade do roteiro. Durante o workshop fechamos com o sistema Ulisses Guimarães, que tem uma ponte dupla e dá acesso à Rodovia dos Bandeirantes. Para completar a documentação voltei nesse ponto específico com o Angelo. Não conseguimos descer até o rio da primeira vez, porque o trânsito é muito intenso. Voltamos em um domingo ao raiar do dia e tem aqui um clipezinho marcando esse momento. Clique e cante comigo, 1...2...:


Cante comigo no Tietê

A edição final e aplicação de efeitos digitais fiz com o Gil Caserta. A única parte ruim desse trabalho foi que teve um momento que acabou e não tinhamos mais o que fazer. Gil é um pilar do projeto do NUPA. Primeiro professor a encarar os alunos quando eram muito crús e inseguros e o estúdio-escola era apertado e sem ventilação. Continua dando uma força incrível pra gente, inclusive literalmente acudindo em situações complicadas. Conseguiu até mesmo recuperar um lap-top que tinha sido roubado, usando um sistema de rastreamento que instalou na máquina. O investigador de polícia não acreditou quando a direção do CCJ Ruth Cardoso levou a investigação pronta, limpa, dobrada e cheirando amaciante, bastando recuperar o equipamento subtraído no endereço indicado, com dados e até fotos de quem estava com a máquina, tirada pela própria...

Lay-out de cena zoom in e out aérea
Sobre o trabalho com o Fabio Góes vou contar em um outro post. 

A seguir depoimentos de alguns dos participantes do projeto. A todos eles, à equipe do CCJ Ruth Cardoso, Leandro Benetti e Prof. Carlos Augusto Calil, meus sinceros agradecimentos. Vou sentir falta de vocês com o fim do NUPA. 


ALÊ ABREU (concepção visual + NUPA workshop)

Em minha contribuição para Canta, Ty-Etê! tive a oportunidade de criar o design e o story-board de um filme que não seria animado e nem dirigido por mim, focando pra valer toda a energia nestes dois importantes aspectos.
Durante oficinas que ministramos aos alunos do NUPA, pude rever, aprofundar meus conceitos sobre DESIGN voltado a animação. O mesmo ocorreu com questões relativas a decupagem.
O projeto Canta, Tyetê!  ganhou forma a partir das sugestões e do debate com os alunos do NUPA e foi realizado com uma feliz mistura de trabalho, idéias e estilos de colegas que admiro. 
O que falta para o Brasil ter uma produção de animação mais consistente?
Acho que o Brasil vive um momento histórico na animação, mas desconfio que ainda não respondemos a seguinte pergunta: O que significa fazer animação no Brasil?

Key-vision, de Alê Abreu

GIL CASERTA (animação digital)

Contribuir nesse projeto, significou, primeiramente, a oportunidade de trabalhar com pessoas que admiro profissionalmente, num ambiente de efetiva colaboração e respeito. Posteriormente, devido à minha função, o prazer em presenciar a obra se completando a cada etapa e as reações dos que assistiam pela primeira vez.
Minha formação acadêmica é em publicidade, mas trabalho no audiovisual desde o surgimento do uso dos computadores, em especial na área de animação. Desenvolvo também oficinas de técnicas básicas de stopmotion e animação para crianças e adolescentes junto a entidades culturais.

Balsa de garrafas pet,
modelagem de Gil Caserta, arte-final Angelo Bonito

ANGELO BONITO (cenários)

Pra mim foi muuiito significativo ter contribuído em Canta, Ty-Etê!! Ser convidado e considerado para completar o trabalho  dessas pessoas que participaram fez muito bem pra mim, são muito talentosas! Fiquei lisonjeado e feliz, espero ter correspondido.
Gosto bastante de animação, quem não tem uma animação de tv ou cinema que não tenha marcado na vida, acho que principalmente da minha geração?
Artista preferido? Fico com Walt Disney, seus filmes fazem parte da minha história, na adolescência ia ao cinema e assistia duas sessões seguidas, encantado.

Color script, de Angelo Bonito
Foto referência Complexo Ulisses Gumarães

RONEY FREITAS (roteirista ganhador do edital Paulicéia de roteiros com o tema Rios e Riachos de São Paulo)

Pra mim significou muito poder participar do Canta, Ty-etê! porque ele afluiu não apenas do edital Canta, Riacho!, proposto pelo NUPA/CCJ Ruth Cardoso, mas também de minha pesquisa sobre o rio Tietê para um documentário que dirigi, que estava em curso concomitantemente. Foi sincrônico. 
Este curta documentário a que me refiro é meu trabalho mais recente, ainda em finalização, e que busca questionar poeticamente: -Quando teremos os nossos rios limpos? Este é meu primeiro curta documentário e em que me envolvo mais com São Paulo, onde consigo falar melhor da minha aldeia, por onde mais me identifico e me relaciono, pelo rio.
E acho que assim como a proposta do NUPA - desde o edital que vocês lançaram até o filme finalizado - assim como o movimento que faço, há muitos que estão sensíveis a essa questão de São Paulo. Não à toa cada vez mais filmes eu vejo, movimentos engajados nessa causa, peças de teatro, notícias na imprensa. O Tietê e todos os rios que desenham nossa cidade estão cada dia mais envolvidos pelo interesse da nossa sociedade, com um desejo claro: queremos nossos rios, limpos!
Acho que esses filmes que fazemos vem com uma força muito maior portanto, como se junto às nossas ondulações, por baixo estivesse um peixe fluido pronto a erguer um salto. Em cores vivas!
"Canta, Ty-etê!" traz essa mensagem com vida, cor, música e encanto. Acho que ele deve ser passado em todos o canais e plataformas possíveis de visualização, e ser divulgado nas escolas, ser visto por crianças. Pois uma animação como essa tem a graça da comunicação universal, com todas as idades. E é essa a mensagem do rio, quem o observa e chega perto dele sabe que ele não está morto, muito pelo contrário, é muito forte estar em contato com ele. Façamos coro a esse canto, porque os rios precisam viver e a gente precisar viver os rios de São Paulo.
Obrigado pela oportunidade, pela beleza do trabalho conjunto.
E parabéns a todos os envolvidos, que o NUPA tenha vida longa, de muitas realizações de qualidade!
Story-board, de Alê Abreu


SANDRO CLEUZO (desenho animado)

Foi bastante gratificante pra mim contribuir com esta animação, pois foi a primeira vez em mais de 20 anos que  foi me oferecido participar de um projeto brasileiro e  por isso não tive dúvidas. Também foi ótimo colaborar com artistas do Brasil como o o Alê Abreu, Céu D'Ellia, Angelo Bonito e Gil Caserta, entre outros.
Se posso contar um pouco sobre o projeto em que estou colaborando agora e sobre qual minha participação nele?
Um pouco, pois já foi anunciado.  Estou animando num projeto da Dreamworks chamado Me and My Shadow, um filme híbrido que combina personagens em computacao com personagens animados em desenho a mão. Estou animando na parte desenhada a mão, mas estou treinando computação e espero poder fazer algumas cenas nas duas formas.
Se acho que o desenho animado a mão terá um novo ciclo? Ou foi mesmo enterrado pela computação gráfica? Se depender de grandes estúdios, acho que haverá muito pouco ou nada. Dependerá  dos pequenos estúdios independentes e dos artistas que amam a arte da animação feita a mão pra não morrer de vez.  Eu mesmo vou fazer de tudo pra continuar a fazer assim e já comecei o meu curta.
O que falta para o Brasil ter uma produção de animação mais consistente?
Acho que, como muitos já falaram, um maior investimento em projetos nacionais sérios, mas sem descartar co-produções com outros países, o que é feito muito na Europa e até aqui nos EUA. Acho também que os diretores de animação de longa metragem do Brasil deveriam pensar em fazer filmes que possam ser universais, podendo assim ser distribuídos em outros países.


Model de personagens, de Alê Abreu


ALEX CÓI (NUPA workshop)

Pesquisa de locação, 
pelos alunos do workshop 
(Leo Conceição, Paulo dos Santos
e Michael dos Santos):
Ponte da Anhanguera;
Atenção no Bagre!
Aprendi nas oficinas a trabalhar em grupo e estar aberto a opiniões diferentes das minhas. Gostei de produzir material em conjunto com outros artistas e escolher o que tem de melhor em todos os trabalhos com o objetivo de chegar na criação da melhor opção.
O NUPA aumentou meu repertório visual e minhas referências, minha análise sobre os filmes (de animação ou live action) como um todo. Conheci a concepção dos filmes passando pelas diversas etapas que compõe este longo processo, além de conhecer diversos animadores e diretores e alguns processos criativos bem interessantes. Certamente, uma experiência enriquecedora.
As aulas teóricas, as discussões acerca das animações, as referências históricas e a ligação disso com trabalhos desenvolvidos hoje em dia... Gostei muito dos workshops de criação de personagens, cenários e storyboard. Achei o conteúdo discutido muito relevante. Acho o ambiente do NUPA muito saudável e propicio para criação.

Estudo para Bagre-Grafite, de Paulo dos Santos


ERIC LOVRIC (NUPA workshop) 

Pesquisa de locação, 
pelos alunos do workshop:
Ponte do Estado; Vai um Bagre aí?
O NUPA me pôs em contato com pessoas que partilham dos mesmos gostos e interesses que os meus, e a quem eu dificilmente viria a conhecer de outra forma. Os workshops foram uma grande contribuição tanto para o artístico quanto para o profissional. Artisticamente porque os trabalhos a serem feitos me forçaram a refinar o meu traço. Profissionalmente porque me apresentaram formas de trabalhar que são comuns à indústria, as quais eu até então desconhecia.


MICHAEL DOS SANTOS (NUPA workshop)
Estudo Balseiro,

de Michael dos Santos

Minha visão antes do NUPA era aprender um software a mais para acrescentar no currículo, na minha busca de trabalhar com desenho e animação. Mas fui muito além disso, aprendi muita coisa. Em principal o planejamento que está presente em tudo, desde fazer um risco no papel até lidar com pessoas.
Aos poucos vou planejando minha carreira em busca de ser um profissional cada vez melhor. Trabalho com animação graças ao NUPA onde aprendi quase todos conceitos sobre animação. Criei hábito de assistir filmes alternativos, ver tipos de artes visuais variadas. Esse tipo de referência tem ajudado no meu processo artístico e criativo.
Gostei de participar dos Workshop de pré-produção e ter uma liberdade pra dar ideias e sugestões sobre filmes que estão acontecendo.

Proposta de Story-board,
de Leo Conceição

EDSON YASSUO (NUPA workshop)

Pesquisa de locação, 
pelos alunos do workshop:
Complexo Viário Ulisses Guimarães;
Finalmente encontramos o lugar 
para enfiar nosso Bagre!
A minha paixão por animação cresceu ainda mais no NUPA. Tive professores excelentes e generosos como o Gil Caserta e o Céu D'Ellia. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente profissionais como o Fábio Yabu, Joaquim 3 Rios, Alceu Baptistão, Fabio Yamaji, e outros. Meu olhar acabou mudando e hoje tenho gosto em aprender muito mais sobre este universo da animação.
Sou muito grato ao NUPA e aos envolvidos em me proporcionar tantas coisas boas.
Com todas as palestras dos profissionais, as aulas das oficinas e workshops que participei, meu repertório aumentou muito. Participo do NUPA desde 2010, e nesse meio tempo consegui um emprego na área de motion graphics que utiliza linguagem da animação. O NUPA contribuiu e muito para minha formação profissional e artística.
Gosto bastante das aulas teóricas. Já tive aulas de animação na faculdade, mas não se compara ao conteúdo rico abordado no NUPA. Fiz amizade com artistas que compartilham dos mesmos gostos e paixões que eu. O ambiente é favorável para criarmos e nos divertirmos. Nos anos anteriores tivemos os workshops do Mario de Andrade e Canta Tietê, e ver o que discutimos em aula tomar forma e materializar é emocionante.


Estudo Garota, de Goma
GOMA (NUPA workshop) 

Além de sempre conhecer mais pessoas interessantes e interessadas no desenho, em cada oficina que participo, aprendo mais sobre a animação! Faço contatos, adquiro informação.
É preciso terem mais oficinas! A de design é muito boa, devia ter uma mais estendida!


RAFF RIBEIRO (NUPA workshop)

Estudo para Balsa de pets, Balseiro e Cão, de Raff Ribeiro
O NUPA foi o ponto de virada da minha vida. Lá que em uma palestra eu consegui meu primeiro estágio de verdade e meu primeiro trabalho com animação. Aprendi muitas coisas sobre animação, sobre os processos e sobre como olhar para uma animação de uma maneira profissional. Impossível não vincular o NUPA ao Céu, em todas as palestras aprendi um mar de coisas, coisas que até hoje estou digerindo e algumas só fazem sentido muito tempo depois. A animação e o NUPA me fizeram ser um pouco menos caótico, animação exige uma certa disciplina. Fiz umas amizades bem importantes no NUPA que espero levar pra vida.


ÉDER GIL (NUPA workshop)

Estudo para Grafiteiro, de Éder Gil
Boa parte da minha formação profissional e artística eu devo ao NUPA. Antes eu tinha vontade de estudar animação, mas achava um curso caro e fora da minha realidade. A idéia era "se um dia der eu faço". Conhecer, estudar e trabalhar no NUPA foi algo muito especial. Aprendi a animar! Antes achava que animação era só o tradicional frame a frame, INCLUINDO O CENÁRIO! Aprendi cut-out, frame a frame, misturar as técnicas, extremos, movimentos em arco, a buscar referências e várias outras coisas. 
Assisti palestras sobre grandes animadores de todo o mundo, sobre suas dificuldades para chegarem aonde estão em uma época em que era muito mais difícil de fazer animação, histórias que nos inspiram muito. Conheci grandes artistas daqui do Brasil! Artistas que eu conhecia o trabalho na TV mas, como a maioria, eu não sabia nem o nome, e escutei as suas histórias, com dificuldades parecidas com as nossas de início de carreira. Saber que eles venceram essas dificuldades é inspirador. 
O ambiente que o NUPA proporciona também é muito legal. Gosto muito de chegar lá na sala e ver cheia de gente, conversar com todos, pessoas com as mesmas afinidades, artistas, com as mesmas dificuldades e dúvidas, com estilos diferentes, com futuros promissores. E por fim, o que mais curti foi de conhecer os mestres Gil e Céu, os brothers Ana e Raff, os meus alunos, meus parceiros de aula, a galera dos outros horários, artistas que apareciam lá do nada (tipo Jonatan e o maluco dos bonecos). Acho que é isso. Ainda tem mais um monte de coisa mas eu não sei como colocar no texto, sem dizer que ficaria super cansativo de ler :)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Impressões Iludentes: o fanático



E persiste a semente de ahankara, em frondosa árvore de sombras no coração e na mente do fanático. 
Porque um fanático NUNCA se percebe como tal.

Dividindo o mundo em heróis e vilões e acreditando-se plenamente do lado do certo e do justo, incentiva o linchamento, o ódio, o saque e o ataque. 

O fanático se admira no espelho de seu mundo dualista e enxerga apenas o que quer ver. E NUNCA vê ele mesmo: fanático. 
Pois se visse, não o seria. É cego de si.

E o Herói, o verdadeiro, continua casual. Emergindo por um segundo das ondas do horror e sumindo novamente, náufrago da história. Nunca está inteiro na imagem que deixa. Vive em um mundo sem vilões desfazendo a vilania. Sua forma é só passado. Seu Amor é o presente. O futuro não lhe pertence.


Nós estavamos cobrindo outra história quando ouvimos tiros. 
Nós corremos em direção ao som e encontramos uma loja sendo saqueada.
Dois policiais haitianos atiravam de vez em quando para o ar, tentando impor a ordem, mas funcionou por
pouco tempo e os saques recomeçaram.
Estavam roubando caixas de velas. 
Um negociante americano chamado Tony que era dono de duas lojas próximas, barricou uma rua para manter
os saqueadores afastados.
Ele armou os dois policiais haitianos com armas automáticas, e eles o estavam ajudando, mas não
conseguiam controlar nada que estivesse além da barricada.
Rapidamente virou um deus-nos-acuda. Jovens lutavam uns com os outros pelos ítens roubados.
Alguns deles tinham facas, porretes, chaves-de-fenda e pedras.
Estavam usando suas armas improvisadas para ameaçar e agredir os outros que tinham algo roubado.
Os ladrões agora eram roubados.
Eu estava em meio à pancadaria com meu produtor, Charlie Moore, meu câmera, Neil Hallsworth, 
meu tradutor, Vlad Duthiers. 
E havia também um fotógrafo da Getty Images, o foto-jornalista Jonathan Torgovnik.
Quando as coisas ficaram completamente fora de controle, eu vi um saqueador no telhado de uma loja
invadida atirar na multidão o que parecia ser um bloco de concreto.
Atingiu um garoto na cabeça.
Eu vi ele tombar.
Mais pedaços de concreto eram atirados nos saqueadores no telhado.
O garoto ferido não conseguia se levantar.
Ele tentou, e caiu novamente.
Sangue vertia de sua cabeça.
Ele estava consciente, mas não tinha controle de seu corpo.
Eu fiquei com medo que alguém no telhado o visse ali e atirasse outro bloco de concreto.
Eu fiquei com medo que alguém o matasse.
Ninguém parecia se importar com ele.








domingo, 30 de setembro de 2012

Declaro (apesar dos atiradores de pedra)...



Na semana de 31 de agosto a 6 de setembro de 2012 o CCJ Ruth Cardoso foi destaque no caderno DIVIRTA-SE do jornal ESTADO DE SÃO PAULO. Também ganhei um espacinho junto com o NUPA, nessa matéria.

É muito raro a imprensa paulistana divulgar as coisas boas que a Prefeitura faz e por isso fiquei bem surpreso com esse destaque. Tirando a Virada Cultural, que é incontornável, os jornais praticamente boicotam o acesso da população a saber o que é oferecido a ela pela Secretaria Municipal de Cultura. Eu mesmo procurei as redações dos jornais para divulgarmos nossas oficinas gratuitas e o Prêmio Paulicéia. E durante três anos: nada. Um dos prêmios do terceiro Paulicéia finalmente foi divulgado pelo Estadão, único jornal por enquanto a fazer isso.

Nestes anos em que estive por aqui ví coisas maravilhosas serem oferecidas no CCJ, mas nenhuma linha na imprensa colaborando com a divulgação. A maioria dos jornalistas é petista e isso provavelmente explica o boicote.

Nos próximos dias anuncio aqui no blog a lista de artistas contratados para  FILME PILOTO, um novo projeto do NUPA. E em breve, mais um filme da série Paulicéia será lançado em nosso canal: CANTA, TYETÊ!

Mas no momento quero esclarecer algumas questões que surgiram ao longo da execução do projeto do NUPA através do CCJ Ruth Cardoso e Secretaria Municipal de Cultura, e que envolvem interpretações políticas.

Alguns alunos manifestaram surprêsa ao saber que não faço parte de nenhum partido político. E eu fiquei surprêso com essa surprêsa: - Porque eu deveria? Aliás, eles acham que devo ser do partido do atual prefeito, ou do prefeito que indicou o atual Secretário de Cultura, Carlos Augusto Calil.
Pensei um pouco e conversei com eles pra entender melhor essa idéia e cheguei a uma conclusão: A geração que hoje está entre 20 e 28 anos, desde que começou a votar, está com o PT  dominando a política nacional. E por isso estão acostumados com a idéia que é normal um partido, estando no poder, ocupar todos os cargos só com gente ligada ao mesmo. Mas na verdade isso não é normal. E nem é bom. O ideal, pelo menos na minha opinião, é que os cargos e os projetos sejam ocupados por competência e interesse coletivo e não por afiliação e interesses de facções.
Antigamente, esse tipo de ocupação indesejável era chamado fisiologismo e aparelhamento, e era considerado pela imprensa e pela oposição de então (o próprio PT) como uma coisa horrorosa. Mas atualmente, como eu escrevi acima, boa parte da imprensa é petista, disfarçada ou assumidamente financiada, e quase ninguém fala mais nada. E aí, mais uma prática errada e ruim para o povo, virou coisa normal e aceita.

Em maio de 2012, depois de três anos
sem nenhuma linha nos jornais,
o caderno Metrópole do jornal Estadão
deu à população a oportunidade de ser
informada de nosso quarto prêmio
Paulicéia, o Cena de Amor.
Uma coisa é certa: Eu não sou de partido nenhum e pretendo continuar assim. Por outro lado, isso significa que não serei chamado pra fazer coisas como o NUPA por partidos fisiológicos como o PT. Mas melhor assim. Quero meu trabalho reconhecido pelo mérito e não por ser puxa-saco ou esbirro. Prezo minha independência intelectual como minha própria vida.

Essa coisa de achar que eu sou de um partido político chegou ainda mais longe: Uma aluna comentou com um artista residente: - O Céu é legal, mas pena que é de direita.
Bom, se eu fosse do PSDB (e não sou), não seria de direita. PSDB quer dizer Partido Social Democrata Brasileiro. Isso significa socialista (esquerda) mas democrata.
Essa coisa de ficar dizendo que os tucanos são de direita (sub-entenda-se, "do mal") é uma propaganda petista pra tentar negar as contribuições de pessoas desse partido para o bem-estar social.
E achar que democracia é coisa de direita, é opinião apenas daqueles que se dizem de esquerda, mas que o que querem mesmo é que seu grupo de amigos, que eles declaram que são os únicos representantes legítimos do povo, permaneçam pra sempre no poder. Em outras palavras, mais claras: DITADORES. Ou você achava que só existe ditadura de direita? Cuba e China são ditaduras e se dizem de esquerda, por exemplo.

Eu só posso estar aqui escrevendo isto agora, e dando minha opinião, porque vivo em uma democracia e não numa ditadura.

Aliás, essa idéia de que a Esquerda é do Bem e a Direita é do Mal é coisa de quem não sabe o que quer dizer esquerda e direita. Mas pessoalmente na verdade, eu não concordo com esse tipo de teoria política, que me parece demasiado simplista. É fruto de um tipo de mentalidade materialista, que acha que dinheiro, tecnologia e classe social são as únicas coisas importantes para o ser humano. E Espírito, Amor, Natureza, Arte e Imaginação, que são coisas bem mais importantes para este Ser Humano que está escrevendo isto aqui agora, ficam de fora dessa teoria tosca.

Então estou declarando:

- Não sou de nenhum partido político.

- Não sou de direita, porque não acredito que o Indivíduo substitua o Espírito, o Amor e a Natureza.

- Não sou de esquerda, porque não acredito que o Estado substitua o Espírito, o Amor e a Natureza.

- É o despertar do Espírito, do Amor e da Natureza que trazem todas as conquistas humanas, inclusive a justiça social.

- Acredito que o Coletivo é no mínimo o Universo.

- Quero meu trabalho reconhecido pelo meu esforço e mérito, e não por ter carteirinha de algum partido político ou facção doutrinária.


Fato: O CCJ Ruth Cardoso foi criado pelo Serra em 2005. Ele fez uma visita na Vila Nova Cachoeirinha, periferia de São Paulo na Zona Norte, e viu um prédio abandonado, que era da própria Prefeitura, construído na época do Janio Quadros para ser um centro de distribuição tipo Ceagesp, e que , largado sem acabar, tinha virado lixão e ponto de crimes bem barra-pesada durante as gestões Erundina-Maluf-Pitta-Marta. O entorno ao prédio era desolador, afetando todo o bairro. Serra, então prefeito, chamou Luciana Guimarães pra pensar qual a melhor forma de implantar no prédio um centro para jovens. A Luciana montou uma equipe, que incluiu a Ruth Cardoso e surgiu em 2006 o Centro Cultural da Juventude. Em 2008, com a morte da Ruth, o Centro foi batizado com seu nome, como homenagem. O Leandro Benetti, atual diretor do CCJ, trabalha ali desde 2006 e assumiu a direção em 2008.
O que é bacana no CCJ Ruth Cardoso é que os jovens tem espaço, estrutura e até recursos financeiros para fazerem a arte e a cultura que querem. Podem pensar e falar o que querem. Os shows gratuitos são super legais e lotam, mas isso é só uma das muitas atividades do centro, mantido com uma equipe enxuta mas super dedicada.
O entorno e o próprio bairro mudaram e melhoraram muito com a instalação do CCJ. É só comparar como era em 2005 e como é hoje.
Seria legal as pessoas estarem mais bem informadas antes de atirarem pedras. Correm o risco de fazer um papel bem feio. 
Se deixar levar por incentivadores de ódio é do livre arbítrio de cada um, claro. Mas certamente não é a opção que vai construir um mundo bom e justo. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Encruzilhada


Quem acompanha o blog deve ter percebido que meu ritmo regular de uma mensagem por semana, parou.

Em parte porque ando realmente sem tempo: Trabalhando 16 horas por dia, inclusive fins-de-semana. A maior parte por conta do NUPA. Quatro Paulicéias em produção: 
CANTA, TYETÊ!, que logo mais tá pronto. 
KURUPYRA NO ANHANGABAÚ, em modelagem e rigging complexos. BICICLETAS EM SÃO PAULO, que entra em produção amanhã. 
CENA DE AMOR EM SÃO PAULO, que está em contratação e vai integrar um projeto maior de FILME PILOTO, super legal e que assim que fecharmos todos os artistas envolvidos explico melhor. 
Além disso, umas questões de registros de direitos das obras todas, pra resolver, razão pela qual o primeiro Paulicéia, MÁRIO DE ANDRADE, ainda não foi pros festivais. 
E tem também o clip EXPANSÃO, com a música da banda independente O Jardim das Horas, que continua andando, com as animações dos COLETIVOS P.A. e do atual artista residente do NUPA, o Michael dos Santos
E continuo todo sábado, das 10h às 20h nas oficinas lá do estúdio NUPA no CCJ Ruth Cardoso, dando três aulas de conteúdo, além de acompanhar individualmente cada aluno. A maior parte deste ano, aproveitando o integral remasterizado dos filmes da UPA, estudamos a própria, a revolução estética geral que causou e sua influência determinante na criação do desenho animado pra TV, da Escola de Zagreb e no Anime. Também estudamos a questão da origem das idéias para os filmes de animação, com um destaque para Uma Cilada para Roger Rabbit, e o método de ampliar a Criatividade do Pithon John Cleese.
Neste mês também dei uma aula de abertura no curso de pós-graduação em semiótica da PUC.
E fora isso ainda tenho a HQ do ZÚ KINKAJÚ pra terminar. Trabalhos comissionados, nem pensar. Tive que pedir aos clientes pra darem um tempo de me passar jobs. Decisão difícil. Custa tanto pra ter clientes legais, com boa comunicação no trabalho...
Além do trabalho, continuo com minha atividade voluntária como professor de meditação e ainda algum acompanhamento em nossa ong de voluntários, A ARCA DO AMOR HARIHARANANDA SP, junto às famílias do Bairro do Glicério.

Mas não é só por isso (ou tudo isso). Estou em dúvida de que caminho seguir aqui no blog. Escrevi diversos textos sobre animação e design na esperança de ver surgir um debate. As estatísticas de leitura do blog são boas. Mas muito poucos comentários. E como debater sozinho é "se debater", e não tenho vontade de viver como peixe fora d'água...

Bom, por hora aqui vai um desenho brilhante que o Oscar Grillo mandou hoje. O nome é ONE NOTE SAMBA (SAMBA EM UMA NOTA SÓ). Aproveitem e até o próximo post.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

Resultado final PAULICÉIA 2012



O trabalho dos jurados para escolher os vencedores dos Editais Paulicéia 2012, CENA DE AMOR EM SÃO PAULO e BICICLETAS EM SÃO PAULO não foi pequeno. O número de inscritos dobrou em relação ao ano anterior e a qualidade média dos roteiros também melhorou sensivelmente, principalmente para BICICLETAS. 
Recebemos 79 inscrições para CENA DE AMOR e 81 para BICICLETAS, totalizando 160 roteiros para serem lidos e analisados.


Camila Pitanga em
EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS,
dirigido por
BETO BRANT
A participação de todos é muito importante. Valoriza o prêmio e a proposta. Mas, principalmente, contribui para o processo de transformação da cidade. Os temas escolhidos conduzem a um aprofundamento das raízes culturais dos que moram em São Paulo. Participar significa querer se expressar, acordar para a possibilidade de termos um lugar melhor para todos, com mais amor, fraternidade e entendimento cidadão. É uma questão de deixar pra trás esse comportamento inerte e ausente que se torna cúmplice, por omissão, dos eventuais desatinos do poder público. Democracia só funciona se todos arregaçarem as mangas e defenderem o bem comum. 


Arte e Cultura lançam na memória as sementes do que construímos como realidade. E todos que participam dos Editais Paulicéia, contemplados na lista final ou não, estão balançando as linhas invisíveis dos sonhos da cidade. 


Peixonauta, de CÉLIA CATUNDA e KIKO MISTRORIGO
Os Editais tem servido também para levantarmos um banco de dados de roteiristas. Por exemplo, um dos participantes tradicionais do concurso, o roteirista Eric Lovric, não ganhou nenhuma vez, mas chamou nossa atenção. E estamos estudando sua participação em um outro projeto que em breve será iniciado. 
Então tenha certeza que o esforço de quem participa não é em vão. Já ouviu dizer que para escrever o roteiro perfeito você precisa antes escrever 999 roteiros? Pois é. Se esta é a primeira vez que você escreve um roteiro, então já tem um na lista. Faltam agora 998. 


Este ano tem eleição municipal. Então não sei o que será do NUPA em 2013. Talvez esta seja a última edição dos Editais Paulicéia. O futuro dirá. Agradeço de coração todos que participaram de nossas atividades até agora. Palestrantes, alunos, profissionais, platéia do Fazendesenhanimado, equipe do CCJ e diretor Leandro Benetti, inscritos selecionados e não selecionados, professores, artistas residentes, torcida a favor, secretário de Cultura Carlos Augusto Calil e o gabinete da secretaria, e até torcida contra e caluniadores. Muchas gracias!


Valeu, Ian Tomaz!
O júri de 2012 contou com o cineasta Beto Brant. Com 3 curta-metragens e 7 longas na prateleira e mais uma porção de prêmios, deu realmente um gás incrível nos trabalhos, entusiasmado e a todo momento puxando da pilha mais um roteiro que deveria ser lido de novo. Célia Catunda, a criadora-mãe dos diversos personagens, em séries de animação e quadrinhos, da TV Pinguim, também contribuiu muito, com seu olhar experiente em desenho animado. E pra termos certeza que estavamos pedalando na direção certa na análise do BICICLETAS, contamos adicionalmente com Ian Tomaz, energizado cicloativista da Bike Anjo e, também conhecedor de design e animação.


Em ambos os editais a competição entre o primeiro e o segundo lugar foi dura. Por muito pouco a ordem final não foi a inversa. Custou muito debate e análise. E o resultado agora é este, publicado no Diário Oficial do Município de São Paulo:




BICICLETAS EM SÃO PAULO:


Projeto escolhido: TRANSPORTE PARA O FUTURO, de Paulo Garfunkel


Suplentes, por ordem de classificação:
Primeiro suplente: DONA MARIA LIMA & BICICLETA ENFERRUJADA, de Rachel Schein
Segundo suplente: A BICICLETA, de Tânia Cardoso
Terceiro suplente: A CICLOVIA, de Carolina Santos
Quarto suplente: TÔ CHEGANDO, de Rodolfo Stegmann
Quinto suplente: SAMPA SOB DUAS RODAS, de Diana Boccara




CENA DE AMOR EM SÃO PAULO:


Projeto escolhido: ENSINA-ME A VOAR, de Evelyn Nonato


Suplentes, por ordem de classificação:
Primeiro suplente: A SELVA, de Afonso Júnior
Segundo suplente: DJ E DANÇARINA, de José Custódio Filho
Terceiro suplente: CACHORRO PERDIDO, de Eduardo Paiva
Quarto suplente: PEQUENOS CUIDADOS, de Marcella dos Santos
Quinto suplente: TE VI, de Pedro Andrade


Felicitações a todos. Próximo sábado já começa o workshop que vai conceber visualmente os roteiros escolhidos. E em agosto já começam a ser produzidos por artistas profissionais de destaque.

Uma última observação: Se em BICICLETAS tivemos bastante originalidade e variedade, em CENAS DE AMOR faltou um pouco de imaginação. Muitos roteiros repetiam a idéia do casal de jovens que se encontra e se apaixona. Os finalistas foram aqueles que foram um pouco além disso. E especialmente ENSINA-ME A VOAR, que pensou em um amor mais abrangente e fraterno, e A SELVA, que propôs um roteiro muito simpático de amor na terceira idade, em contraste com a velocidade apressada da cidade. 
Evelyn Nonato é a primeira vencedora dos editais que não é profissional em roteiros. Provando que uma boa idéia é o que vale, como sempre repetimos a cada divulgação de abertura de inscrições.