domingo, 29 de maio de 2011

Ecos do Fazendesenhanimado



A jornalista Bárbara Santos, da revista EMCARTAZ, editada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, me entrevistou por ocasião do FAZEN'DESENHANIMADO do mês de Maio, com Webdahora e Jimmy Leroy, da Nick. 
Apenas parte pequena da entrevista foi publicada. Pra quem quiser, segue abaixo a íntegra:

THE PIG FARMER, do canadense Nick Cross.
A necessária visão independente, que pensa e expressa
o que pensa.  Ainda bem que existe gente fazendo filmes 
assim. Produzido com apoio de micro-investidores. Ainda 
bem que existem micro-investidores apoiando filmes
assim.
EMCARTAZ: Quais são as principais oportunidades que se abriram no campo da animação com a Web? 
CÉU: Acho que antes de tudo é bom deixar claro que a web derrubou pesadamente o mercado graças aos downloads piratas. E quem mais tomou na cabeça com isso foram os independentes. As majors passaram a produzir em estereoscopia, para driblar a pirataria e obrigar que o filme seja visto na sala de cinema, pagando ingresso. E distribuem em ações internacionais simultâneas. O mesmo filme é colocado ao mesmo tempo, quase no mesmo dia, em milhares de salas no mundo todo. Nas primeiras semanas faz a fortuna e saca mais rápido que a distribuição pirata. Mas para essa estratégia é preciso muito capital de investimento. Então o cineasta independente, com sua imprescindível visão independente, que dependia do lento boca a boca, e que não tem, nem de longe, o poder de investir das majors, foi o mais afetado pela pirataria na web.
Por outro lado, é bom lembrar, na TV de canais abertos, o que paga a produção é a publicidade. Então, com a web, alguns cineastas independentes estão começando a criar seus próprios canais e, desde que tenham bastante público, gerar sua própria receita de publicidade. Há também o crowdfunding. É uma rede web de micro-investimentos. Um filme tem sua produção viabilizada pelo próprio público que quer vê-lo. O público se torna cotista da produção para ter o privilégio de assistir o filme antes de todos, ou ter seu nome nos créditos, ou simplesmente por amor ao trabalho de determinado artista e de sua obra e mensagem, coisas assim. Criadores contemporâneos como NICK CROSS e JOE MURRAY são exemplo dessa utilização da internet como canal independente próprio e de auto-financiamento.
Pode-se também acrescentar que a web acelerou o processo de difusão de uma obra, mesmo que não renda nada. Para estudantes que querem exibir seu trabalho, já é muito mais eficiente, rápido e barato do que depender de festivais, por exemplo.
Além das questões vitais de produção e distribuição, a web tem permitido também a troca rápida de informações, de composição de network, etc.

EMCARTAZ: Quais são as características mais marcantes dessa nova safra de animadores em relação às gerações anteriores? 
CÉU: Finalmente a animação é considerada altamente rentável. Virou big business. Antigamente, necessariamente, os animadores e cineastas de animação eram apaixonados, quase obsecados pela arte da animação. E era muito mais trabalhoso e caro de se fazer. A digitalização e as novas tecnologias tornaram muito mais fácil fazer um filme.
Então nas novas gerações já existem aqueles que são menos artistas e mais técnicos. Tem mais suporte de amigos e familiares para seguir carreira, já que todos ficam imaginando que é possível ganhar muito dinheiro fazendo animação. Claro, não é bem isso. É no final das contas um trabalho como outro qualquer, principalmente para os que tem uma abordagem mais técnica. Mas ao menos é mais palpável como profissão do que no passado.
Como reflexo desse aumento de produção e de interessados, a competição também é muito maior. Em resumo, há menos paixão e mais profissionalismo.
Mas os melhores profissionais sempre são os mais apaixonados...
 


EMCARTAZ: Você citou animadores estrangeiros. Qual é a principal característica dos criadores brasileiros em relação aos de fora? 

CÉUAinda não há um volume de criadores e criações brasileiras que permita esse tipo de análise. Conhece o provérbio "uma andorinha não faz verão"?
A mídia e o público estão entusiasmados com o destaque do Carlos Saldanha. Mas este não é exemplo de animação brasileira. É um brasileiro, morando e trabalhando nos Estados Unidos há muitos anos, em produções com investimento estadunidense. Com equipe de profissionais americanos e quase nenhum ex-brasileiro além do Carlos. Parabenizo o Carlos. Ele é inteligente e eu sou burro. Ele ficou. Eu voltei.
Mas a realidade da animação brasileira não são os filmes dele. É verdade que nos últimos 3 ou 4 anos a produção de animação nacional cresceu mais que em 30 anos. Mas tem muito lixo no meio disso. Tem até mesmo uns sem-vergonhas genuinamente brasileiros ganhando dinheiro fazendo plágio hiper-porquento de filmes estrangeiros, vendendo em DVD e enganando o público, que compra gato por lebre. Quem faz e quem vende esse tipo de produto, enganando os consumidores, tapeando famílias de gente simples que não percebe a fraude, merece cadeia. Infelizmente isso é um exemplo de animação brasileira que a mídia e o poder público ficam fazendo de conta que não vêem. Prefere-se achar que animação brasileira é o Carlos Saldanha.
KURUPYRA no TAYASSÚ-ETÊ

o símbolo do NUPA(Núcleo Paulistano de Animação),
no CCJ Ruth Cardoso 
Mas SIM, há muitos brasileiros fazendo coisa boa. São eles que estamos trazendo para as apresentações do Fazendesenhanimado. E a lista é grande, ainda bem. No entanto ainda estamos precisando avançar mais para ter um conjunto de obra com características próprias. Acredito que, em parte estamos contribuindo, modestamente, no CCJ Ruth Cardoso e NUPA com essa meta. Aprimorando os jovens profissionais, oferecendo editais com temas que discutem a cultura local, trazendo convidados brasileiros que fazem coisas realmente bacanas, etc.
Faço votos que em um futuro breve seja possível responder essa sua pergunta. E que eu possa dizer: somos inovadores, criativos e contribuimos para uma visão mais amorosa da vida.

EMCARTAZ: Como se formou o Núcleo Paulistano de Animação? 
CÉU: O NUPA, Núcleo Paulistano de Animção, ainda está em formação. Por enquanto é um programa subordinado ao CCJ Ruth Cardoso, não existindo como entidade jurídica de fato. É uma demanda antiga. Anos atrás falei desse assunto com o Professor Calil, quando ele me convidou para lecionar a matéria Introdução ao Cinema de Animação na ECA/USP. Quando ele ocupou o cargo de Secretário de Cultura voltamos a falar. Coincidentemente, na mesma época, o diretor do CCJ Ruth Cardoso, Leandro Benetti, havia identificado entre seu público a demanda por algo assim. Então juntamos forças.


JIMMY LEROY, da NICKELODEON,
o convidado do Fazendesenhanimado de Maio de 2011.
EMCARTAZ: E o "FAZEN’DESENHANIMADO POR UM NÍQUEL!"? 
CÉU: Uma das atividades do NUPA é um encontro mensal de um profissional de animação, de alto-nível, com uma platéia de interessados, para discutir o “fazer”. Agora teremos o JIMMY LEROY da NICKELODEON. Além disso, nesses encontros, eu, em minha função de curador, escolho algum tema de produção relevante para discutir com o público, projetar filmes e painéis. Esses encontros chamam-se “FAZEN'DESENHANIMADO”. Como o tema de Maio envolve a NICKELODEON * e também as novas alternativas de viabilização independente, completamos o nome com “POR UM NÍQUEL”. Mas sinto muito, precisa muito mais que um níquel pra fazer um desenho animado...
ROBERT SPONGE: A estrela maior da NICK.
(Ou será que eu devia dizer a esponja maior???)

*N.A.: O nome NICKELODEON faz referência às antigas máquinas de lazer, do início do século XX, que exibiam um filme, em um pequeno visor individual, mediante o pagamento de UM NÍQUEL.





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