Vão Gôgo 1923-2012



O MENSAGEIRO, 1970
Não que eu queira transformar este blog em obituário. Mas ainda estou me despedindo do Moebius e o Millôr Fernandes resolve ir embora também. E são esses mágicos da iludência fundamentais pra mim. Então, garotas e garotos, mais um adeus. 
Vão Gôgo foi um pseudônimo que o Millôr usou nos cartuns e em sua colunas entre o fim da década de 30 e o começo dos anos 60. Falando da invejadíssima Universidade do Meyer, Millor explica também sobre Vão Gôgo: A Universidade foi "Fundada" em 1945 por Emmanuel Vão Gôgo, pseudônimo do autor. A escolha desse pseudônimo pelo Magnífico Reitor da Instituição (escolhido e eleito por ele mesmo) já indicava um de seus objetivos básicos: a fusão do altamente plástico (Van Gogh) ao altamente filosófico (Kant) através de um anamorfismo humorístico. Daí a deformação auto-ridicularizante de Van para Vão (pressuposto de vanidade, grandiloquência) e Gogh para Gôgo (doença de galinha, pressuposto de psitacismo, boquirroptismo, cretinice). Cuidado na corrida ao dicionário.


A ida do Millôr, sabe pra onde, me faz perceber que gente como ele anda realmente em falta aqui nestas terras de Pindorama, baixios de Vera Cruz, Planalto Central, terra incógnita, beiras e adjacências. A ignorância está aguda no Brasil, como numcaanteznestchipaiz. E inteligência virou mosca branca. Ave, Anta!


E já que o assunto é morte, sobre essa dama silenciosa o Millôr escreveu:


CONTRA-ESPIONAGEM, 1961
- A morte é hereditária. 


- Não estar aqui e não estar em parte alguma eu não mereço. Não há nada mais terrível do que a morte, não me minta, nada mais verdadeiro, menos compartilhado. Eu vou sozinha (Mãe. Duas tábuas e uma paixão. 1981)


- Lendo história verifico que tem gente que já morreu há mais de 100.000 anos. E me vem uma certeza; a morte pode não ser definitiva, mas é por muito tempo.


- Um dia, mais dia menos dia, acaba o dia-a-dia.


- Só se morre uma vez. Mas é pra sempre.


- Morte súbita: É aquela em que a pessoa morre sem auxílio dos médicos.




O que será do Millôr agora, segundo o próprio? Difícil saber. Quando chega a hora, tão próxima, tão distante, renunciam ao palco todas as palavras e só restam espectadores. E sobrevoam pensamentos: Deus existe? Não? Sim? Não? 
Herdeiro e mantenedor da tradição irônica e iconoclasta, Millôr deixou coisas como:


- Deus existe. Mas é ateu.


- Deus fez o mundo em seis dias apenas porque ainda não havia sindicato. Hoje levaria trinta.


- Deus foi muito bem sucedido no Brasil. Mas fracassou totalmente nos brasileiros.


- Está bem, Deus ajuda a quem madruga. Mas e se a gente esperar o amanhecer no bar?


- Eu vou acabar acreditando em Deus. Tá difícil acreditar em qualquer outra coisa.


- Tá bem, digamos que Deus existe. Mas é evidente que fez isso tudo aqui sem a menor atenção e foi tratar de outra coisa.


- Deus fez o mundo. E logo o Diabo inventou uma maneira de medir as terras.
1967 (assinada por Emannuel Vão Gôgo)


A frase que realmente ficou na minha cabeça, desde que eu lia o Millôr na minha infância e adolescência, na década de setenta, e até hoje acende o que há de melhor no meu direito de Ser Humano, é "LIVRE PENSAR, É SÓ PENSAR". Se parece pouco pra você, que acabou de conhecer essa idéia agora, sugiro enfaticamente que pense novamente. A Liberdade tem um pilar. E a pedra fundamental desse pilar, é só pensar.


Adeus, Millôr. Encontro você na paralela.


- E como disse a paralela para outra, no infinito: "Não podemos continuar nos encontrando assim."


PROGRESSISTA, 1978
Continua totalmente atual este cartum.

Aliás, mais ainda do que na época em que foi feito, se considerar a que tem se prestado a democracia brasileira, que deu tanto trabalho recuperar.
Claro, bom lembrar que Millôr se refere nesse cartum aos trabalhadores que trabalham e não aos sócios majoritários do PT Corporation. 



Comentários

  1. Obrigado por partilhar alguns trabalhos fantásticos dele. Gostei especialmente das frases.

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  2. Diante da escassez de brasileiros que pensam, a partida de Millôr gera um enorme vazio.

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