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terça-feira, 30 de julho de 2013

Em busca do caminho do meio


dezinfluênciasmaisuma 8: Hergé



A fluência das HQs de Hergé, em texto, narrativa e forma, continua precisa mesmo depois de muitas décadas. Há sempre quem queira pinçar elementos da sua obra para fora do contexto da época e condições em que o trabalho foi criado, para fazer acusações grosseiras e, principalmente, superficiais.

Hergé era um homem de boa fé. O tempo só lhe fez mais maduro para defender com clareza e simplicidade sua visão livre de dogmas e patrulhamentos ideológicos. O mundo de Tintin reflete a angústia do eterno teatro da idiotice humana e a liberdade frágil dos que trafegam nesse palco, investidos de inocência.


Os mais de cinquenta anos de trabalho resultam em diferentes fases, mas certamente o grande marco divisório tanto para Hergé como para os quadrinhos, especialmente a chamada banda desenhada, ou estilo europeu, é Le Lotus Bleu (O Loto Azul). Se antes desse livro Tintin viaja pelo mundo apenas para reproduzir a visão ingênua, mas estereotipada, que o catolicismo burguês alimentara no jovem Hergé, a partir dele o jovem repórter se abre para uma visão verdadeiramente cristã e humanista: somos todos irmãos e é apenas nossa própria mesquinhez materialista que nos nega vivermos em paz uns com os outros. 

Ouvindo um pouco o próprio Hergé, famoso por seu silêncio profundo, em trechos de uma entrevista a Numa Sadoul, para Les Cahiers de la Bande Dessinée, em 1978:

- O que é principalmente apaixonante, eu penso, em nossa época, é seguir a evolução da arte, de tentar descobrir talentos autênticos, de não rejeitar nada a priori. Claro, as formas mudam, a linguagem se adapta, a sensibilidade se transforma, mas, fundamentalmente, é sempre o mesmo problema para o criador: se definir, buscar o próprio equilíbrio, exprimir sua própria condição de mundo. Assim, para mim, não existe diferença fundamental entre Berrocal e um mármore grego, entre Schoeffer e Miquelângelo. 

- Eu não gosto do lado político, do lado patrulheiro engajado das coisas. Eu sou um homem do caminho do meio, eu penso. Ao menos eu tento ser... Eu sou de Gêmeos e minha tendência é de escutar os prós e os contras, de ser mais observador que ator. Em um conflito, mesmo que me diga respeito, eu me esforço sempre em buscar a verdade e escutar com atenção meu interlocutor. Nós não encontramos a verdade com frequência, nem mesmo nunca: talvez encontremos, de tempos em tempos, a NOSSA verdade, a verdade momentânea. Porque tudo isso é muito fugaz. Nós estamos sempre em permanente evolução. Descobri isso para minha grande estupefação.

- Se Tintin é um inveterado escoteiro? Mas por que não? É tão ridículo assim fazer uma boa ação? Amar a natureza? Esforçar-se a ser fiel à palavra dada? Mas felizmente o escotismo de Tintin é temperado pelos companheiros que o cercam. Eu mesmo fui escoteiro: minha patrulha era dos "Esquilos" e meu totem "Raposa Curiosa". E a influência que o escotismo teve em mim eu considero benéfica.

- Tudo mudou depois que terminei Les Cigares du Pharaon (Os Charutos do Faraó). Eu anunciei no Petit Vingtieme que Tintin iria continuar sua viagem para o Extremo Oriente. E nesse momento eu recebi uma carta que me dizia, essencialmente, isto: "- Eu sou padre-professor de estudantes chineses na Universidade Católica de Louvain. Ora, Tintin vai partir para a China. Se você mostrar os chineses como os ocidentais geralmente os representam: se você os mostrar com uma trança que na dinastia manchúria era sinal de escravidão, se você os mostrar astuciosos e cruéis, e se você falar de torturas, então você irá ferir meus estudantes. Por favor, seja prudente: informe-se..." E foi o que eu fiz e o Frei Gosset -era seu nome- me colocou em contato com um de seus estudantes, que era desenhista, pintor, escultor, poeta, e se chamava... Tchang Tchong-Yen. Sim, foi esse o nome que eu dei ao pequeno chinês que Tintin encontra e que se torna seu amigo, e que ele reencontrará mais tarde em Tintin au Tibet (Tintin no Tibet). Mas foi no momento de Le Lotus Bleu que eu descobri um mundo novo. Para mim, até então, a China era com efeito, povoada de multidões de olhos puxados, pessoas muito cruéis que comiam ninhos de andorinha... Eu exprimi tudo isso em um diálogo curto entre Tintin e Tchang. Então, descobri uma civilização que eu ignorava completamente e, ao mesmo tempo, tomei consciência de uma espécie de "responsabilidade". Foi a partir dali que me coloquei a pesquisar documentação, a me interessar verdadeiramente pelas pessoas e pelos países a que enviava Tintin. Tudo graças ao meu encontro com Tchang. Eu lhe devo também por ter melhor compreendido o sentido da amizade, da poesia e da natureza... 

- Eu não gosto disso que se diz "barato", nem com pessoas, nem com sentimentos, nem mesmo com objetos. Isso não significa, vamos deixar bem claro, que só as coisas que custam caro, só os mármores raros, só as madeiras de lei, tem valor aos meus olhos. Não, um simples copo de barro pode ser muito belo, um móvel de plástico, também. Aquilo que eu sou sensível é à qualidade. Existem pessoas de qualidade, como existem coisas de qualidade. Mas o que vai acontecer com essa noção de qualidade, agora que caminhamos mais e mais para a produção em série, a produção em massa?...

- É provável que eu esteja buscando um tipo de equilíbrio em meus desenhos. Mas é principalmente inconsciente. O que é consciente, por outro lado, é minha busca pela "lisibilidade". Nada é gratuito: eu descarto os efeitos puramente decorativos ou estéticos. Eu repito, meu único objetivo é ser o mais claro possível. E todo o resto é subordinado. A grande dificuldade nos Quadrinhos é mostrar exatamente o que é necessário e suficiente para o entendimento da narrativa: nada a mais, nada a menos. 

Lidos os trechos do depoimento de Hergé acima, e refletindo um pouco, fica claro perceber porque a adaptação de Tintin, por Spielberg, para as telas de cinema, resultou tão desastrosa. Para além dos imperativos comerciais e de um filme que mais se parece com assistir alguém jogando sozinho um vídeo-game com bonecos de borracha industrializados, faltou toda a essência de Hergé. Pesado, confuso, excessivo, o filme, apesar de orçamento altíssimo, carece de arte, clareza e identidade. É um caríssimo filme barato. Sem a sensibilidade com que Hergé utiliza o patético como moldura que revela o ser humano, resta apenas a caricatura como armadura sem gente dentro. Fantasmas com máscaras.


Sem título, 1963. 
Óleo sobre tela de Hergé.
Movido por seu interesse pela
arte contemporânea e tendo Van Lint
como seu professor, Hergé irá pintar
37 telas abstratas no início da década
de 60. As pinturas adquiriram rapida-
mente grande valor, mas o próprio
Hergé não considerou que tivesse
realmente o que exprimir nessa área,
abandonando-a. A última aventura,
inacabada, de Tintin, chamava-se
Alpha-Art e era crítica em relação
aos critérios mercadológicos que
dominaram a arte.

dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin
dezinfluênciasmaisuma 4: Monet
dezinfluênciasmaisuma 5: Nine
dezinfluênciasmaisuma 6: Les Nabis
dezinfluênciasmaisuma 7: Mattotti



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A história é criada com as imagens


dezinfluênciasmaisuma 7: Mattotti*1




- A (formação em) arquitetura me fez compreender que os cenários são às vezes mais importantes que os personagens para contar uma história.

- O fato (de passar muitos anos, no início) sem conseguir ser publicado, me deu talvez a energia de dizer a mim mesmo: "- Tanto pior, eu irei até o final, eu conseguirei chegar em alguma coisa!"

- Eu venho de uma geração para a qual todos os meus lados loucos, surrealistas, eram ideologicamente suspeitos. Minha geração tentava falar do real. Minha ideia era que os quadrinhos podiam também falar do real.

- Nós nos interessávamos pela música de Brian Eno, nós queríamos destruir todas as estruturas. Eu adorava Henri Michaux, Raymond Queneau, a ideia de brincar com os códigos de forma irônica, pataphysica
*2. Os leitores escreviam para reclamar: "- Não estamos compreendendo nada, tirem eles da revista (Alter/Linus)! Isso não é quadrinhos! Eles estão destruindo os quadrinhos..." Mas para nós, isso não era destruir, mas misturar, reinterpretar os clichês, quebrar fronteiras.
Prancha de Le Bruit du Givre (O Ruído do Orvalho)

- Há um momento em que uma imagem se impõe pela sua força, e eu decido de a "seguir", pode-se dizer, em detrimento da história. Com Fogos (Feux)*3, eu percebi que controlar esse irracional é a chave. Não deveria seguir a lógica do texto, que cria um excesso de obrigações para o desenho, mas seguir a lógica do desenho. É a boa rota pra mim. A história é criada com as imagens. 

- Eu tinha as idéias dos diálogos, mas eu não os escrevia. Eu primeiro desenhava a cena.

- Os desenhos fazem parte de minha vida. É uma energia que deve sair de mim... Um gravador toscano me disse algo que tomou um papel importante em minha vida: "- Cada dia que passa você deve fazer avançar o seu trabalho. Cada sinal desenhado fará parte de sua vida. Se você constrói passo a passo, então no dia em que você sentir-se perdido, você se voltará e verá o que fez: é sua vida. Você nunca se perderá: ao menos você saberá o que fez ontem. Da mesma maneira, você pode desenhar o mesmo rosto todos os dias: ao longo do tempo, isso fixará aquilo que você é, porque os signos mudam e esse mesmo rosto será completamente diferente." 

- Aquilo que sempre retorna, eu creio, são esses momentos em que um personagem compreende que faz parte das pessoas que estão a seu redor, que há uma harmonia do mundo, esses momentos em que nos dizemos que é bom estar vivo. Esses momentos fazem parte de minha vida: podem ser durante uma sessão de meditação respiratória, durante o amor com uma mulher, admirando uma paisagem depois da tempestade... Então nós estamos conscientes de nós mesmos, nós sabemos que fazemos parte do mundo; e não há nada a explicar.


*1n.b.- Depoimentos recolhidos por Gilles Ciment e Jean-Pierre Mercier do artista italiano Lorenzo Mattotti e publicados em
 9e Art, número 9. Entrevistado em Paris, em março de 2003.
*2n.b.- Pataphysica, ciência das soluções imaginarias, inventada pelo escritor dramaturgo Alfred Jarry 
*3n.b.- Feux é uma HQ de 1986 que marcou o amadurecimento de Mattotti como criador.


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sábado, 21 de abril de 2012

Síntese heterogênea



Maurice Denis, Taches de soleil sur la terrasse (Manchas de sol no terraço),




1890, óleo sobre cartão, 20 x 20,5 cm, Museu d'Orsay, Paris.



dezinfluências mais uma 6: Les Nabis




Nabi significa profeta em hebreu e árabe. E foi com esse termo, sugerido a Paul Sérusier pelo escritor Cazalis, que um grupo de uma dúzia de jovens artistas, aproximadamente entre 1888 e 1900, escolheu se designar, meio sériamente, meio como piada, para afirmar sua vontade comum de romper os limites da pintura oficial e renovar a arte em todas as suas formas.


Félix Vallotton,
Enfant jouant au ballon ou Le Ballon
(Criança brincando com bola ou A Bola),
1899, óleo sobre cartão colado em madeira,
48 x 61 cm, Museu D'Orsay, Paris






Sintetismo: Uma pequena paisagem informa à medida que é formulada sintéticamente. 
(Maurice Denis)






Lembrar-se que uma pintura, antes de ser de um cavalo de batalha, uma mulher nua ou uma anedota qualquer, é uma superfície plana, coberta de cores em uma certa ordem organizada.
(Maurice Denis)






Pintar aquilo que vemos, de súbito, entrando em uma sala.
(Bonnard)






O conteúdo de emoção, que apenas a observação pode oferecer, é a condição primeira de uma obra de arte, antes do espírito de método e a inteligência prática que nascem na própria alma que experimenta essa emoção.
(Vuillard)


Maurice Denis,
les Muses (as Musas),
1893, óleo sobre tela, 168 x 135cm
Museu d'Orsay, Paris




Por que é que é nos lugares familiares que o espírito e a sensibilidade encontram o verdadeiramente novo?
(Vuillard)






Buscar a emoção simples e natural.
(Vuillard)






Pintura não é mais do que buscar essas imagens interiores, por meio abundante também, de cores e formas.
(Vuillard)






Pierre Bonnard,
l'Omnibus (o Ônibus),
circa 1895, óleo sobre tela, 59 x 41cm
Galeria Félix Vercel, Paris
Nosso mérito, se existir algum, consiste talvez em que tenhamos aceitado as expressões mais heterogêneas, quando elas eram sinceras.
(Vuillard)

















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Maurice Denis, les Arbres verts ou les Hêtres de Kerduel 
(as Árvores Verdes ou as Castanheiras de Kerduel),

1893, óleo sobre tela, 46 x 43cm
Coleção particular


Félix Valloton, le Bon Marché (a Pechincha),
1898, detalhe de um tríptico em óleo sobre cartão
70 x 50cm (cada parte), coleção particular


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Marsupilami


Uli Meyer nos escreve que um desenho original de Franquin, uma capa do Trombone Illustré de 1980, foi vendida nesta semana em Paris, em um leilão, por 153 mil dólares. 
O desenho original de Franquin, a nanquin, no lado direito.
À esquerda, a cor que era feita separadamente e acrescentada nas páginas impressas.


Curiosa e um pouco mórbida essa idéia de valorização financeira de uma obra de um artista morto. Ainda mais se considerarmos que nem mesmo valor artístico (para os críticos e marchands que ditam o que é Arte) esse desenho tinha quado foi feito, trinta anos atrás: - um cartum, capa de um suplemento em uma revista em quadrinhos infantil. 
Alguns anos antes ainda de ter desenhado essa peça, na década de 60, Franquin simplesmente jogava seus originais fora, ou os dava de presente com facilidade.

O valor financeiro de uma peça original de arte é apenas resultado de especulação e jogadas oportunas?

Sugiro que assistam um filme dirigido e co-escrito por Tim Robbins em 1999, Cradle Will Rock (no Brasil, O Poder Vai Dançar). Baseado em fatos reais, sugere que as opções estéticas da dita ARTE que se acha importante (Essa que gosta de Bienais, de teorias críticas intencionalmente incompreensíveis, poder, status e principalmente DINHEIRO) foram manipuladas pelo poder econômico na primeira metade do século XX, para a esvaziar de seu conteúdo político de reinvidicação socialista que emergia então. 
O filme documenta o pintor mexicano Diego Rivera, herdeiro da arte mural política de seu país, que pintou um mural provocativo no Rockefeller Center, que incluia, entre outras coisas, um retrato de Lenin. O mural foi destruído: fato. Mas se a opção pelo abstracionismo nasceu de uma tentativa de esvaziar o conteúdo simbólico da arte de então, isso é especulação. 

E se chama a atenção que o desenho inicialmente desimportante de Franquin passe a valer tanto trinta anos depois, é ainda mais singular e mórbido, passados 80 anos, o que aconteceu com toda aquela sêde de justiça social dos movimentos dito socialistas. É o melancólico desembocar da China em capitalismo de Estado, onde o governo é o patrão escravagista. E o patético e ainda muito mais mórbido Brasil, controlado por sindicalistas, mantidos por contribuições obrigatórias (extorsões legais) para sindicatos que não fazem nada. Governantes pelêgos que andam de braços dados com banqueiros, em um país com a taxa de juros mais alta do mundo. Uma população que opta pela ignorância com a convicção de Herodes. De todo aquele sonho, discursos e sangue que moveram os movimentos sociais, fica essa sensação meia boca de que o ser humano não vale nada mesmo, é fundamentalmente egoísta, corrupto, e sempre seduzido pelo poder de dominar os outros.

Será mesmo que não valemos nada? O Franquin me faz pensar (singelamente) o contrário.

Voltando a ele: Sempre desenhou pelo prazer de dar prazer. Principalmente às crianças. Gostava de fazer rir. Dedicava-se horas a isso, quase febrilmente. Certamente não pensava em ficar rico. O que se pagava pelas páginas de quadrinhos que fazia, permitia que sobrevivesse dignamente, e só. Franquin era um ser humano movido pelo amor que sentia pelo seu trabalho, pelas crianças que o liam e pelos animais que caricaturava tão bem.
Capa do álbum de 1953



Entre suas criações estava o Marsupilami. Criou o personagem, um animal imaginário, das imaginárias selvas tropicais da Palômbia, para uma aventura de Spirou et Fantasio, Les Héretiers, publicada em capítulos semanais na revista Spirou. O Marsupilami surge nos quiosques de revista em 31 de janeiro de 1952. E a história é publicada pela primeira vez, completa, em álbum, no ano seguinte.



Os direitos do herói Spirou pertenciam à Editora Dupuis, mas Franquin consequiu negociar para manter para si os direitos do personagem de cauda longuíssima. Seguiram-se diversos álbuns entre participações nas aventuras de Spirou e pequenas aparições em Gaston Lagaffe. Um primo do Marsupilami, desenhado por Jijé faz uma aparição surpresa em Blondin et Cirage. E, finalmente, em 1987, uma série de álbuns solo que, à exceção do primeiro, foram apenas roteirizados por Franquin. 
Capa do álbum de 1960




De tudo, talvez o que tenha marcado mais seja um álbum da série Spirou et Fantasio, em forma de pseudo-documentário, que narra no melhor formato National Geographic, a poética e cheia de gags vida de uma família de marsupilamis selvagens em seu ambiente natural, Le Nid des Marsupilamis.


Em 1993, Franquin negocia com os estúdios Disney os direitos do personagem para uma adaptação em desenhos animados. A série respeita pouco da criação original e nem mesmo dá o crédito devido ao autor. O desleixo e desrespeito da Disney são pagos no tribunal com a perda dos direitos da adaptação, em 1999, e seu retorno aos herdeiros. Dois anos portanto depois da morte, em 1997, com 73 anos, do belga André Franquin. Que nunca soube que seus desenhos valeriam tanto, nem que conseguiu retomar o controle de seu personagem das mãos da Disney. E nem que continuariam a surgir mais e mais adaptações do seu bicho, a mais recente delas, neste de ano de 2012, uma versão em live action e CG: Houba! Sur la Piste du Marsupilami. Seguem cartaz e trailer do filme, ainda inédito no Brasil:




Mas toda tecnologia atual não supera o brilho simples dos traços em papel dos desenhos originais:

1955, Les Pirates du Silence
prancha 9 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1960, L'Ombre du Z
prancha 14 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1968,  série Vie et moeurs du Marsupilami
cartão postal

1974, Tembo Tabou
vinheta de canto de página do álbum

1977, Houu Ba!
primeira publicação no Trombone Illustré Spirou 2031

Então, e isto aqui agora é só uma opinião pessoal, toda a valorização econômica dos desenhos originais de Franquin não aumentaram pra mim seu valor intrínseco. Eles sempre tiveram um valor imensurável, pelo amor simples com que foram feitos. Porque o autor não fez isso porque tivesse em mente um objetivo estratégico de poder, um discurso ideológico ou político. Não fez assim porque seguiu as ordens ou determinações de algum suposto mestre espiritual, uma ordem religiosa ou uma ética coletiva. Fez assim porque ele é um ser humano e quis.
Ser humano assim é bem legal. Tem o maior valor...

Mais sobre Franquin neste link: dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Abstrato X Figurativo



dezinfluênciasmaisuma 5: Nine


Le Canard qui Aimait les Poules (O Pato que Amava as Galinhas)


Eu creio que o conflito entre figurativo e abstrato nunca existiu. Tudo isso que nós chamamos de "arte" no campo da imagem é uma abstração. E é assim por sua natureza psíquica, mesmo. É fatal. Nós não fazemos um nariz. O que o desenhista faz é evocar, através de traços e golpes de pincel, o conceito de "nariz". Ele o desdobra em um espaço de duas dimensões (altura e largura), que é aquele da folha ou tela. Uma forma tridimensional real é portanto evocada, simbolizada e "amassada" sobre uma forma bidimensional. É um artifício abstrato que, nas mãos de bons artesãos, pode transmitir mensagens sentimentais, exercendo um poderoso poder de sugestão sobre as massas. Mas é uma representação abstrata.


Basta se lembrar da sólida união que sempre existiu entre os artistas e a Igreja na busca da evangelização. As pessoas acabaram se convencendo que sob as abóbadas haviam realmente anjos que voavam porque, mesmo que não fosse verdade, era verossímil e isso nos ajudava a familiarizar com a coreografia de uma nova espiritualidade. Essas técnicas tornavam tragáveis os episódios mais insólitos da fábula católica original. Paolo Uccello, obsecado por uma versão acreditável da perspectiva, esgrimava a aperfeiçoar essas representações, não perseguindo apenas uma pesquisa formal, mas uma necessidade estratégica, ideológica. Com a interrupção do individualismo, todo o sistema de especialidades em representar a realidade desmoronou, o mito da perspectiva desabou, o jogo é então liberado, mas abstrato. Ele sempre foi.


A abstração precede a palavra que a designa. Isso me faz lembrar uma frase do escritor argentino Roberto Arlt: "A realidade é uma hipótese da imaginação". 


(Carlos Nine, hommage à l'arrière-cour, 2008. Entrevista a F.D.)





dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin
dezinfluênciasmaisuma 4: Monet

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fixidez impermanente (impermanência fixa)



dezinfluênciasmaisuma 4: Monet


Monet dizia com frequência que sempre trabalhava melhor na solidão e unicamente baseado em suas impressões. 


- Eu gostaria de pintar como o pássaro canta.


Pintando barcos sobre o rio Epte, no verão de 1887, ele quis retratar a água com a vegetação ondulante a superfície, e comentou: 
- É maravilhoso de olhar, mas é de enlouquecer quando tentamos fixar isso em uma tela.


En Canot sur l'Epte, 1890. óleo sobre tela. 133 cm x 145 cm
Acervo do MASP, museu de arte de são paulo
dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mamute à la Franquin



dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin


Franquin repetia com frequência que passou sua infância em uma família muito, muito séria: 
- Foi talvez daí que veio minha necessidade de rir. O riso era um dos meus vícios de juventude. Quando eu tinha a oportunidade de morrer de rir, eu me sentia como o Marsupilami na floresta, quando ele descobre o riso, e o bem que isso faz.  Fala-se o tempo todo de se fazer coisas educativas (para as crianças). Mas o educativo não é a biografia de Cristovão Colombo, que não passava de um sujo escravagista e que provocou um monte de porcarias. O educativo é trazer o riso para as famílias que não sabem rir. (Le Point, novembro 1965)


Sobre as crianças e os animais:
- As crianças vivem um pouco os mesmos problemas que os animais. Nós as guiamos, as obrigamos a fazerem coisas que não que querem. (Bonnes Soirées, dezembro 1972)
- Mesmo muito pequenas, as crianças se sentem atraídas pelos animais. Eu mantive essa espécie de instinto. Me alegram bem, os animais. Eu penso, por exemplo, que eles são "repousantes", quando comparados aos seres humanos. (Revista Saucisson, data indeterminada)

dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Jenipapo Absoluto



dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal 


Kayapó-Xikrin do Cateté


... e ainda que não possuam uma palavra para expressar essa noção, consideram a pintura corporal como um atributo da própria natureza humana. No mito da Mulher Estrela, heroína cultural responsável pela origem das plantas cultivadas, a transformação de estrela em ser humano se efetua por meio da pintura e da ornamentação corporais. E assim também o recém-nascido, após a queda do cordão umbilical, é logo em seguida, pintado de jenipapo, reconhecimento de seu status de pessoa humana.


Acima, pinturas masculinas cotidianas,
da esq a direita:

me-ã-kakei, tê-djo-iadui, ã-moy e akoy-ôk

Abaixo, pinturas masculinas para ocasiões específicas,
da esq a direita:

a-mi-kra (dedo do jacaré, fim da iniciação masculina),
djoi-mrõ-ko (fim do resguardo)
katob-ôk e me-ã-tonk (cerimonial)

... pelo menos entre os Kayapó-Xikrin, a pintura é tarefa exclusivamente das mulheres, que a transformam num verdadeiro hábito, tanto quanto qualquer outra atividade básica, como ir à roça, cozinhar e cuidar dos filhos. Todas pintam, e portanto a qualidade de pintora é considerada como atributo inerente à natureza feminina. Os homens passam tintura de carvão ou urucum na face e no corpo. Sendo uma atividade contínua, as mulheres se apresentam sempre com uma mão preta (a mão paleta) e uma mão branca (aquela que segura). Conduzem, assim, no próprio corpo, além da pintura, a marca indelével de sua condição de pintoras.


Trechos de Grafismos Indígenas de Lux Vidal, desenhos de Odilon Souza Filho

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Ausência Azul

prancha de Le Bouddha D'Azur (O Buda de Azul Celeste)





















dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey*1




- Meus gostos artísticos são mais contemporâneos que os de Lord Westmacott *2: Picasso, Matisse, Léger, Vlamick, Kandinsky, Miró, Mondrian... Eu também fui influenciado por pintores como Bonnard, Vuillard, Derain ou Maurice Denis. 

- Eu conheço um pouco de pinturas e estampas japonesas e chinesas. A noção do vazio está aí presente. As melhores, nesse sentido, são as datadas de antes do século XVIII.


- Se eu não tenho vontade de trabalhar, ou se um desenho está particularmente difícil, tipicamente isso acontece porque existe algum problema de roteiro. E o contrário, se um roteiro está bem escrito, o desenho flui naturalmente. Porque meus desenhos não estão ali pra serem bonitos, mas para contar uma história.


- Cada ponto, cada traço, tem que ser indispensável, senão, é preciso suprimi-lo. Os quadrinhos que eu amo são ao mesmo tempo diretivos, pela decupagem que o autor impões ao leitor, e sugestivos, por seu traço estilizado, que evoca mais do que descreve.


*1n.b.- Depoimentos recolhidos por Antoine Maurel do artista suiço Cosey e publicados em Jonathan, une Autobiographie Imaginaire (Jonathan, uma Autobiografia Imaginária)
*2n.b.- Lord Westmacott, personagem de L'Espace Bleu entre Les Nuages (O Espaço Azul entre as Nuvens)

O Anjo da História diz:

OUT OF MODEL: got to get you into my life

ou: Out of Renaissance via Refusés Model - A homenagem mais homenageada da história da arte? - A referência mais referida da histór...

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