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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O Crime do Teishoku Preto 188


Há uns 10 mil anos atrás, o Gual e a Daniela Bap, produtores culturais, misto de editores com livreiros e colecionadores, mais conhecidos como organizadores da HQ mix... Do que eu estava mesmo falando?

Não sei.
 
Mas o Gual e a Bap me convidaram pra participar de um cadavre exquis. Se não sabe o que é isso, se vira, joga no google, ou imagina o que quiser. Seja criativo.
Aí que eu era o participante número 188 e tive a obsessiva ideia compulsiva de ler todas as 187 páginas anteriores, pra tentar amarrar tudo. TOQ total.

O material todo era para ser publicado em um livro que ia juntar os medalhões do quadrinho nacional, como George Harrison e Ruy Barbosa, e mais uma meia-dúzia de tontos inexpressivos e dispensáveis como eu. Tentou-se crowdfunding, mas não rolou.

Aí que abri um arquivo e encontrei minha página. E como todas as coisas importantes que eu tinha pra escrever sobre o verdadeiro significado da vida, o impacto da arte na alma humana, e a libertação de esquizofrenias ideológicas, não iam ser lidas por ninguém mesmo, então aqui vai, instead:

(Clica na imagem que, se tudo der certo, aumenta e você consegue ler. Não que sua vida vai mudar por causa disso.)

sábado, 12 de abril de 2014

É tu, quem quer kinkajú?



ZU KINKAJÚ, 48 páginas, colorido, já pode ser comprada por internet ou diretamente na livraria, pela COMIX. 

Clica na imagem abaixo, que redireciona pra loja:

O livro conta a história do biólogo Aramis Mococa e sua irmã, Naná, em busca de um misterioso bicho telepático, o Zu Kinkajú. É uma HQ para adultos e crianças, cuidadosamente desenhada no estilo BD europeu, com humor, aventura e um final surpreendente.
O autor, Céu D´Ellia, é cineasta de animação e ambientalista. Recebeu prêmios tanto na área da arte e cultura, como na pesquisa ecológica. Foi o primeiro animador brasileiro a trabalhar com os estúdios de longas metragens de Hollywood. Também é conhecido por ter criado, no fim da década de 80, uma coleção de figurinhas, Ploc Monsters, que marcou a infância de toda uma geração. 

A Folha Ilustrada destacou o lançamento:
(clica e acessa o site da Folha)

O Orlando Pedroso fez uma entrevista inteligente, 
como de costume, no dia do lançamento:
(clica e acessa o blog)


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

9 de Dezembro de 2013: Lançamento Oficial do Livro-HQ Zu Kinkajú.
























9 de DEZEMBRO de 2013
segunda-feira

HORÁRIO:
Das 3 da tarde às 10 da noite


A história completa em HQ estilo BD para leitores de 9 a 99 anos
Álbum de 48 páginas coloridas em papel de alta gramatura.

Preço especial no dia do lançamento: R$20,00
Um presente que muita gente vai gostar.

Exibição de originais e outros materiais, brindes e autógrafos do autor, apenas no dia do lançamento.

TIRAGEM LIMITADA





sábado, 28 de setembro de 2013

O Inimigo


Aramis Mococa, mais conhecido como Mo, 
enfrentando os Espectros no Vale da Lua.
(Zú Kinkajú, 48 páginas)



De repente, descobre-se que, quando paramos de criar o inimigo, extingue-se a necessidade de armas.


(Kaká Werá Jecupé)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Labirinto é sua condição inevitável: Conforme-se.


... Apesar das suas inevitáveis reticências, Franquin acabava de definir seu conceito mais elevado: -Desenhar a preto e branco (apenas o que é necessário) contos sombrios sobre as misérias do destino humano.

  • O homem perdido no inverno, reencontrando o olhar cintilante dos lobos ao invés das luzes de um vilarejo, gela de pavor os leitores.
  • As  guilhotinas trabalhando em equipe fazem rir por sua estupidez, colocando em evidência uma sociedade onde cada engrenagem não está nem aí com seu vizinho.
  • O planeta LABIRINTO traz à gag uma nova dimensão: o "riso metafísico". 
(O Quarto Escuro, o mundo de Franquin por Jean-Luc Cambier e Eric Verhoest)





Esta é a pancada inevitável: - O Socorro não chegará a tempo e inevitavelmente sua força (sim, estamos falando de você) estará em levantar a cabeça e sorrir levemente diante do fim. Não há saída. Há apenas a luz difusa do Amor e da Beleza doce e indecifrável daquela confusa menina-mulher que se depara com o desejo vermelho e masculino que desfaz a madrugada.

Por que:

É a honra do caçador que ele
Proteja e preserve a caça,
Caçadores tomados pelo Espírito, honram 
o Criador em Suas criaturas.

E esta é uma muito antiga verdade que escorre entre as tolices que sustentam a ilusória manhã. (Jägermeister)





sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Zu Kinkajú: O que você realmente sabe?



Já está no caminho da gráfica, com 48 páginas. Segue abaixo uma nota que escrevi quando terminei o trabalho e que também estará no livro:

O ilustrador Angelo Bonito me deu uma força
na finalização da arte da capa.
Nota do autor

Desde criança eu me sentia atraído pela busca ao animal misterioso. Podiam ser os animais do imaginário, como o Unicórnio, o Grifo, a Roca, o Marsupilami, o Jeep, o Anhangá, o Pushmi-pullyu ou o Jaguadarte. Podiam ser as histórias dos naturalistas identificando as espécies em longas expedições, como contava o Diário da Viagem de Charles Darwin ao redor do mundo, que li quando tinha 10 anos.

Aos 11, inspirado pelos Cronopios de Julio Cortázar, comecei a pesquisar, nos meus próprios desenhos, o meu animal misterioso. Surgiu o Poligato, que continuou chamando assim por quase duas décadas, até eu desenvolver um programa de conscientização ambiental, nos anos 1990, com a bióloga Andree Vieira.

Ela desenvolvia as atividades com as escolas e eu criava vídeos, histórias, quadrinhos e ilustrações. Chamávamos nosso projeto de Super Eco, e resolvi rebatizar meu Poligato assim. Comecei então a contar a história da busca pelo Super Eco, mas travei em um impasse. Existia um grande equívoco nesse nome e em eu ter imaginado que o Super Eco era uma espécie de super-animal, capaz de se adaptar e viver em qualquer ecossistema. Porque isso seria exatamente o contrário do que a Natureza nos ensina. Cada espécie é única, com habilidades e qualidades próprias, vivendo em ambientes específicos. E toda essa rica diversidade, relacionando-se em equilíbrio dinâmico, é que é a Vida, delicada e preciosa. E a riqueza e o motor da vida é a diversidade. Essa é uma grande lição, que pode ser lembrada sempre. E eu havia ignorado isso em minha história e tomado o caminho errado para encontrar meu animal misterioso.

Os animais são grandes professores. As plantas, especialmente as árvores, e até as pedras, também são. Desde que saibamos prestar atenção, sendo alunos esforçados. Eu e os bichos compartilhamos muitos segredos. Sou grato a eles por isso.

Então, finalmente, depois de mais de dez anos, retomei a busca pelo animal misterioso. Aproveitei da minha história e dos desenhos todas as pistas que ainda me guiavam, e saí na trilha do Zu Kinkajú. Agora nós já sabemos que se trata de uma espécie de mamífero neotropical da família Procionídea, próximo do Gênero Potos (Jupará, Quincajú ou Ursinho do Mel) e do Gênero Bassaricyon (Olingo).

Sim, eu sei, no final das contas muito ainda permanece envolto em mistério. Afinal, o que significa exatamente o fim desta história e o que aconteceu com a Naná durante os quatorze anos que se passaram? Mas isso é para responder em outra oportunidade.

Este livro em quadrinhos foi produzido seguindo três princípios com os quais trabalho há algum tempo: Eco eficiência, Biofilia e a Pergunta-Chave.
Eco eficiência significa escolher materiais para fazer o produto, que não poluam e causem o menor impacto possível ao meio-ambiente.
Biofilia é o amor à vida. A vida é uma dádiva que contém dentro dela mesma um Amor que a sustenta. Despertar as crianças de todas as idades, para isso, é algo em que acredito e que me move.
A Pergunta-Chave é: - O que nós realmente sabemos? – Ao nos fazer essa pergunta, nos tornamos mais cuidadosos e mais conscientes de nossas limitações. A maioria dos danos, incluindo aqueles que causamos a nós mesmos, aos outros e ao mundo em que vivemos, é resultado do nosso excesso de certeza.

E afinal, o que nós realmente sabemos?


Com Amor,
Céu D´Ellia
São Paulo, 14 de Agosto de 2013.

PS: No dia seguinte a ter escrito a nota acima, depois de ter terminado este livro, foi noticiada a descoberta do Olinguito, pelos cientistas do Smithsonian.
Vivendo nas Américas Central e do Sul, este procionídeo, nome científico Bassaricyon neblina, tem a cabeça maior e mais arredondada, o focinho mais curto, e é menor que seu parente mais próximo, o Olingo


terça-feira, 30 de julho de 2013

Em busca do caminho do meio


dezinfluênciasmaisuma 8: Hergé



A fluência das HQs de Hergé, em texto, narrativa e forma, continua precisa mesmo depois de muitas décadas. Há sempre quem queira pinçar elementos da sua obra para fora do contexto da época e condições em que o trabalho foi criado, para fazer acusações grosseiras e, principalmente, superficiais.

Hergé era um homem de boa fé. O tempo só lhe fez mais maduro para defender com clareza e simplicidade sua visão livre de dogmas e patrulhamentos ideológicos. O mundo de Tintin reflete a angústia do eterno teatro da idiotice humana e a liberdade frágil dos que trafegam nesse palco, investidos de inocência.


Os mais de cinquenta anos de trabalho resultam em diferentes fases, mas certamente o grande marco divisório tanto para Hergé como para os quadrinhos, especialmente a chamada banda desenhada, ou estilo europeu, é Le Lotus Bleu (O Loto Azul). Se antes desse livro Tintin viaja pelo mundo apenas para reproduzir a visão ingênua, mas estereotipada, que o catolicismo burguês alimentara no jovem Hergé, a partir dele o jovem repórter se abre para uma visão verdadeiramente cristã e humanista: somos todos irmãos e é apenas nossa própria mesquinhez materialista que nos nega vivermos em paz uns com os outros. 

Ouvindo um pouco o próprio Hergé, famoso por seu silêncio profundo, em trechos de uma entrevista a Numa Sadoul, para Les Cahiers de la Bande Dessinée, em 1978:

- O que é principalmente apaixonante, eu penso, em nossa época, é seguir a evolução da arte, de tentar descobrir talentos autênticos, de não rejeitar nada a priori. Claro, as formas mudam, a linguagem se adapta, a sensibilidade se transforma, mas, fundamentalmente, é sempre o mesmo problema para o criador: se definir, buscar o próprio equilíbrio, exprimir sua própria condição de mundo. Assim, para mim, não existe diferença fundamental entre Berrocal e um mármore grego, entre Schoeffer e Miquelângelo. 

- Eu não gosto do lado político, do lado patrulheiro engajado das coisas. Eu sou um homem do caminho do meio, eu penso. Ao menos eu tento ser... Eu sou de Gêmeos e minha tendência é de escutar os prós e os contras, de ser mais observador que ator. Em um conflito, mesmo que me diga respeito, eu me esforço sempre em buscar a verdade e escutar com atenção meu interlocutor. Nós não encontramos a verdade com frequência, nem mesmo nunca: talvez encontremos, de tempos em tempos, a NOSSA verdade, a verdade momentânea. Porque tudo isso é muito fugaz. Nós estamos sempre em permanente evolução. Descobri isso para minha grande estupefação.

- Se Tintin é um inveterado escoteiro? Mas por que não? É tão ridículo assim fazer uma boa ação? Amar a natureza? Esforçar-se a ser fiel à palavra dada? Mas felizmente o escotismo de Tintin é temperado pelos companheiros que o cercam. Eu mesmo fui escoteiro: minha patrulha era dos "Esquilos" e meu totem "Raposa Curiosa". E a influência que o escotismo teve em mim eu considero benéfica.

- Tudo mudou depois que terminei Les Cigares du Pharaon (Os Charutos do Faraó). Eu anunciei no Petit Vingtieme que Tintin iria continuar sua viagem para o Extremo Oriente. E nesse momento eu recebi uma carta que me dizia, essencialmente, isto: "- Eu sou padre-professor de estudantes chineses na Universidade Católica de Louvain. Ora, Tintin vai partir para a China. Se você mostrar os chineses como os ocidentais geralmente os representam: se você os mostrar com uma trança que na dinastia manchúria era sinal de escravidão, se você os mostrar astuciosos e cruéis, e se você falar de torturas, então você irá ferir meus estudantes. Por favor, seja prudente: informe-se..." E foi o que eu fiz e o Frei Gosset -era seu nome- me colocou em contato com um de seus estudantes, que era desenhista, pintor, escultor, poeta, e se chamava... Tchang Tchong-Yen. Sim, foi esse o nome que eu dei ao pequeno chinês que Tintin encontra e que se torna seu amigo, e que ele reencontrará mais tarde em Tintin au Tibet (Tintin no Tibet). Mas foi no momento de Le Lotus Bleu que eu descobri um mundo novo. Para mim, até então, a China era com efeito, povoada de multidões de olhos puxados, pessoas muito cruéis que comiam ninhos de andorinha... Eu exprimi tudo isso em um diálogo curto entre Tintin e Tchang. Então, descobri uma civilização que eu ignorava completamente e, ao mesmo tempo, tomei consciência de uma espécie de "responsabilidade". Foi a partir dali que me coloquei a pesquisar documentação, a me interessar verdadeiramente pelas pessoas e pelos países a que enviava Tintin. Tudo graças ao meu encontro com Tchang. Eu lhe devo também por ter melhor compreendido o sentido da amizade, da poesia e da natureza... 

- Eu não gosto disso que se diz "barato", nem com pessoas, nem com sentimentos, nem mesmo com objetos. Isso não significa, vamos deixar bem claro, que só as coisas que custam caro, só os mármores raros, só as madeiras de lei, tem valor aos meus olhos. Não, um simples copo de barro pode ser muito belo, um móvel de plástico, também. Aquilo que eu sou sensível é à qualidade. Existem pessoas de qualidade, como existem coisas de qualidade. Mas o que vai acontecer com essa noção de qualidade, agora que caminhamos mais e mais para a produção em série, a produção em massa?...

- É provável que eu esteja buscando um tipo de equilíbrio em meus desenhos. Mas é principalmente inconsciente. O que é consciente, por outro lado, é minha busca pela "lisibilidade". Nada é gratuito: eu descarto os efeitos puramente decorativos ou estéticos. Eu repito, meu único objetivo é ser o mais claro possível. E todo o resto é subordinado. A grande dificuldade nos Quadrinhos é mostrar exatamente o que é necessário e suficiente para o entendimento da narrativa: nada a mais, nada a menos. 

Lidos os trechos do depoimento de Hergé acima, e refletindo um pouco, fica claro perceber porque a adaptação de Tintin, por Spielberg, para as telas de cinema, resultou tão desastrosa. Para além dos imperativos comerciais e de um filme que mais se parece com assistir alguém jogando sozinho um vídeo-game com bonecos de borracha industrializados, faltou toda a essência de Hergé. Pesado, confuso, excessivo, o filme, apesar de orçamento altíssimo, carece de arte, clareza e identidade. É um caríssimo filme barato. Sem a sensibilidade com que Hergé utiliza o patético como moldura que revela o ser humano, resta apenas a caricatura como armadura sem gente dentro. Fantasmas com máscaras.


Sem título, 1963. 
Óleo sobre tela de Hergé.
Movido por seu interesse pela
arte contemporânea e tendo Van Lint
como seu professor, Hergé irá pintar
37 telas abstratas no início da década
de 60. As pinturas adquiriram rapida-
mente grande valor, mas o próprio
Hergé não considerou que tivesse
realmente o que exprimir nessa área,
abandonando-a. A última aventura,
inacabada, de Tintin, chamava-se
Alpha-Art e era crítica em relação
aos critérios mercadológicos que
dominaram a arte.

dezinfluênciasmaisuma 1: Cosey
dezinfluênciasmaisuma 2: Pintura Corporal
dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin
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dezinfluênciasmaisuma 5: Nine
dezinfluênciasmaisuma 6: Les Nabis
dezinfluênciasmaisuma 7: Mattotti



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Dia D Da Vinci Desenhista


Hoje é Dia do Desenhista. Porque o DaVinci teria nascido nesta data. 
Da Vinci, vinha Leonardo, o sujeito que há 600 anos desenvolveu a geometria da terceira dimensão no plano bidimensional, pra hoje chamarem desenho a lápis tridimensional no papel de "2d". 
Entendeu?

Desenhista é aquela pessoa condenada a ser testemunha, sem interferir nos fatos. Veja por exemplo o melhor filme com um desenhista no papel principal, The Draughtsman´s Contract (O Contrato do Desenhista), do Peter Greenway.
Alan Parker não pensa como eu. Pra ele esse filme é: - Uma carrada de presunção desprezível.

O quê? Testemunha que não interfere nos fatos é o Antropólogo? Ah, ah, ah! Quem diz isso não conhece de perto nenhum antropólogo.

Como se vê, este é um mundo cheio de gente que pensa diferente. Lide com isso.

Então, quase esquecendo que supõe-se que eu seja um desenhista, aqui vai um pedaço de um desenho que estou fazendo hoje. Do quarto episódio de Zú Kinkajú, Os Espectros no Vale-da-Lua.




E como nos instantes livres estou aproveitando pra reler Corto Maltese, aqui vai, nesta efeméride das linhas, uma aquarela do Hugo Pratt.
Água entrou no circuito (ou entramos na correnteza das águas), porque um dia perguntaram para o Pratt, ele, sendo um sujeito que tinha morado em tantos lugares diferentes do mundo, por que se considerava um Veneziano. Ele respondeu:


- Porque tenho confiança na água.*





Se é assim, acho que também sou Veneziano. 



*Thierry Thomas, a respeito de Hugo Pratt, em Le roi des eaux

segunda-feira, 11 de março de 2013

Foi: Ahh!!



A tecnologia é boa para os consumidores, até que os autores sejam extintos

(Scott Turow)



Zú Kinkajú: Episódio III, Ondas Mentais em Céu Vermelho

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A história é criada com as imagens


dezinfluênciasmaisuma 7: Mattotti*1




- A (formação em) arquitetura me fez compreender que os cenários são às vezes mais importantes que os personagens para contar uma história.

- O fato (de passar muitos anos, no início) sem conseguir ser publicado, me deu talvez a energia de dizer a mim mesmo: "- Tanto pior, eu irei até o final, eu conseguirei chegar em alguma coisa!"

- Eu venho de uma geração para a qual todos os meus lados loucos, surrealistas, eram ideologicamente suspeitos. Minha geração tentava falar do real. Minha ideia era que os quadrinhos podiam também falar do real.

- Nós nos interessávamos pela música de Brian Eno, nós queríamos destruir todas as estruturas. Eu adorava Henri Michaux, Raymond Queneau, a ideia de brincar com os códigos de forma irônica, pataphysica
*2. Os leitores escreviam para reclamar: "- Não estamos compreendendo nada, tirem eles da revista (Alter/Linus)! Isso não é quadrinhos! Eles estão destruindo os quadrinhos..." Mas para nós, isso não era destruir, mas misturar, reinterpretar os clichês, quebrar fronteiras.
Prancha de Le Bruit du Givre (O Ruído do Orvalho)

- Há um momento em que uma imagem se impõe pela sua força, e eu decido de a "seguir", pode-se dizer, em detrimento da história. Com Fogos (Feux)*3, eu percebi que controlar esse irracional é a chave. Não deveria seguir a lógica do texto, que cria um excesso de obrigações para o desenho, mas seguir a lógica do desenho. É a boa rota pra mim. A história é criada com as imagens. 

- Eu tinha as idéias dos diálogos, mas eu não os escrevia. Eu primeiro desenhava a cena.

- Os desenhos fazem parte de minha vida. É uma energia que deve sair de mim... Um gravador toscano me disse algo que tomou um papel importante em minha vida: "- Cada dia que passa você deve fazer avançar o seu trabalho. Cada sinal desenhado fará parte de sua vida. Se você constrói passo a passo, então no dia em que você sentir-se perdido, você se voltará e verá o que fez: é sua vida. Você nunca se perderá: ao menos você saberá o que fez ontem. Da mesma maneira, você pode desenhar o mesmo rosto todos os dias: ao longo do tempo, isso fixará aquilo que você é, porque os signos mudam e esse mesmo rosto será completamente diferente." 

- Aquilo que sempre retorna, eu creio, são esses momentos em que um personagem compreende que faz parte das pessoas que estão a seu redor, que há uma harmonia do mundo, esses momentos em que nos dizemos que é bom estar vivo. Esses momentos fazem parte de minha vida: podem ser durante uma sessão de meditação respiratória, durante o amor com uma mulher, admirando uma paisagem depois da tempestade... Então nós estamos conscientes de nós mesmos, nós sabemos que fazemos parte do mundo; e não há nada a explicar.


*1n.b.- Depoimentos recolhidos por Gilles Ciment e Jean-Pierre Mercier do artista italiano Lorenzo Mattotti e publicados em
 9e Art, número 9. Entrevistado em Paris, em março de 2003.
*2n.b.- Pataphysica, ciência das soluções imaginarias, inventada pelo escritor dramaturgo Alfred Jarry 
*3n.b.- Feux é uma HQ de 1986 que marcou o amadurecimento de Mattotti como criador.


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segunda-feira, 28 de maio de 2012

De volta 12 anos depois



Finalmente vamos saber o que aconteceu na Chapada dos Veadeiros, em 1998, com o investigador Aramis Mococa (o Mo), sua sobrinha, o guia Songa e a banda de rock Os Cabeças de Bagre. E afinal, se o tal animal telepata que a sobrinha do Mo procurava, existia mesmo. E quem eram as figuras misteriosas que dominavam a mente de nossos amigos. E a Professora Morita, qual o papel dela nisso tudo???????


A publicação dessa HQ foi interrompida em 2000. Mas passados 12 anos, estou trabalhando de novo pra revelar a verdade sobre esses estranhos fatos. 


Por hora, aqui vai o rough e o lay-out da capa. O Angelo Bonito está fazendo a ilustração final e isso me deixa MUITO feliz. Vai ficar BONITO. Tenho certeza.





2012: Ano do ZÚ KINKAJÚ!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Marsupilami


Uli Meyer nos escreve que um desenho original de Franquin, uma capa do Trombone Illustré de 1980, foi vendida nesta semana em Paris, em um leilão, por 153 mil dólares. 
O desenho original de Franquin, a nanquin, no lado direito.
À esquerda, a cor que era feita separadamente e acrescentada nas páginas impressas.


Curiosa e um pouco mórbida essa idéia de valorização financeira de uma obra de um artista morto. Ainda mais se considerarmos que nem mesmo valor artístico (para os críticos e marchands que ditam o que é Arte) esse desenho tinha quado foi feito, trinta anos atrás: - um cartum, capa de um suplemento em uma revista em quadrinhos infantil. 
Alguns anos antes ainda de ter desenhado essa peça, na década de 60, Franquin simplesmente jogava seus originais fora, ou os dava de presente com facilidade.

O valor financeiro de uma peça original de arte é apenas resultado de especulação e jogadas oportunas?

Sugiro que assistam um filme dirigido e co-escrito por Tim Robbins em 1999, Cradle Will Rock (no Brasil, O Poder Vai Dançar). Baseado em fatos reais, sugere que as opções estéticas da dita ARTE que se acha importante (Essa que gosta de Bienais, de teorias críticas intencionalmente incompreensíveis, poder, status e principalmente DINHEIRO) foram manipuladas pelo poder econômico na primeira metade do século XX, para a esvaziar de seu conteúdo político de reinvidicação socialista que emergia então. 
O filme documenta o pintor mexicano Diego Rivera, herdeiro da arte mural política de seu país, que pintou um mural provocativo no Rockefeller Center, que incluia, entre outras coisas, um retrato de Lenin. O mural foi destruído: fato. Mas se a opção pelo abstracionismo nasceu de uma tentativa de esvaziar o conteúdo simbólico da arte de então, isso é especulação. 

E se chama a atenção que o desenho inicialmente desimportante de Franquin passe a valer tanto trinta anos depois, é ainda mais singular e mórbido, passados 80 anos, o que aconteceu com toda aquela sêde de justiça social dos movimentos dito socialistas. É o melancólico desembocar da China em capitalismo de Estado, onde o governo é o patrão escravagista. E o patético e ainda muito mais mórbido Brasil, controlado por sindicalistas, mantidos por contribuições obrigatórias (extorsões legais) para sindicatos que não fazem nada. Governantes pelêgos que andam de braços dados com banqueiros, em um país com a taxa de juros mais alta do mundo. Uma população que opta pela ignorância com a convicção de Herodes. De todo aquele sonho, discursos e sangue que moveram os movimentos sociais, fica essa sensação meia boca de que o ser humano não vale nada mesmo, é fundamentalmente egoísta, corrupto, e sempre seduzido pelo poder de dominar os outros.

Será mesmo que não valemos nada? O Franquin me faz pensar (singelamente) o contrário.

Voltando a ele: Sempre desenhou pelo prazer de dar prazer. Principalmente às crianças. Gostava de fazer rir. Dedicava-se horas a isso, quase febrilmente. Certamente não pensava em ficar rico. O que se pagava pelas páginas de quadrinhos que fazia, permitia que sobrevivesse dignamente, e só. Franquin era um ser humano movido pelo amor que sentia pelo seu trabalho, pelas crianças que o liam e pelos animais que caricaturava tão bem.
Capa do álbum de 1953



Entre suas criações estava o Marsupilami. Criou o personagem, um animal imaginário, das imaginárias selvas tropicais da Palômbia, para uma aventura de Spirou et Fantasio, Les Héretiers, publicada em capítulos semanais na revista Spirou. O Marsupilami surge nos quiosques de revista em 31 de janeiro de 1952. E a história é publicada pela primeira vez, completa, em álbum, no ano seguinte.



Os direitos do herói Spirou pertenciam à Editora Dupuis, mas Franquin consequiu negociar para manter para si os direitos do personagem de cauda longuíssima. Seguiram-se diversos álbuns entre participações nas aventuras de Spirou e pequenas aparições em Gaston Lagaffe. Um primo do Marsupilami, desenhado por Jijé faz uma aparição surpresa em Blondin et Cirage. E, finalmente, em 1987, uma série de álbuns solo que, à exceção do primeiro, foram apenas roteirizados por Franquin. 
Capa do álbum de 1960




De tudo, talvez o que tenha marcado mais seja um álbum da série Spirou et Fantasio, em forma de pseudo-documentário, que narra no melhor formato National Geographic, a poética e cheia de gags vida de uma família de marsupilamis selvagens em seu ambiente natural, Le Nid des Marsupilamis.


Em 1993, Franquin negocia com os estúdios Disney os direitos do personagem para uma adaptação em desenhos animados. A série respeita pouco da criação original e nem mesmo dá o crédito devido ao autor. O desleixo e desrespeito da Disney são pagos no tribunal com a perda dos direitos da adaptação, em 1999, e seu retorno aos herdeiros. Dois anos portanto depois da morte, em 1997, com 73 anos, do belga André Franquin. Que nunca soube que seus desenhos valeriam tanto, nem que conseguiu retomar o controle de seu personagem das mãos da Disney. E nem que continuariam a surgir mais e mais adaptações do seu bicho, a mais recente delas, neste de ano de 2012, uma versão em live action e CG: Houba! Sur la Piste du Marsupilami. Seguem cartaz e trailer do filme, ainda inédito no Brasil:




Mas toda tecnologia atual não supera o brilho simples dos traços em papel dos desenhos originais:

1955, Les Pirates du Silence
prancha 9 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1960, L'Ombre du Z
prancha 14 de uma aventura de Spirou et Fantasio

1968,  série Vie et moeurs du Marsupilami
cartão postal

1974, Tembo Tabou
vinheta de canto de página do álbum

1977, Houu Ba!
primeira publicação no Trombone Illustré Spirou 2031

Então, e isto aqui agora é só uma opinião pessoal, toda a valorização econômica dos desenhos originais de Franquin não aumentaram pra mim seu valor intrínseco. Eles sempre tiveram um valor imensurável, pelo amor simples com que foram feitos. Porque o autor não fez isso porque tivesse em mente um objetivo estratégico de poder, um discurso ideológico ou político. Não fez assim porque seguiu as ordens ou determinações de algum suposto mestre espiritual, uma ordem religiosa ou uma ética coletiva. Fez assim porque ele é um ser humano e quis.
Ser humano assim é bem legal. Tem o maior valor...

Mais sobre Franquin neste link: dezinfluênciasmaisuma 3: Franquin

sábado, 10 de março de 2012

Partida do Deserto B, objetivo: Edena. Próxima Escala: Pharagonescia



O desenhista e roteirista de quadrinhos francês, Jean Giraud, morreu neste sábado pela manhã aos 73 anos, após longa convalescença. Conhecido pelos pseudônimos de Moebius e Gir, notadamente pela criação da séries Blueberry, Arzach, Incal, Inside Moebius, Garagem Hermética, Monde d'Edena e outras. Além de diversas imagens que se tornaram ícones de um tempo adimensional e da fundação da revista Metal Hurlant e dos Humanoides Associes, que marcaram a criação fantástica-espacial em todo mundo a partir dos anos 70. Influenciou fortemente toda a criação visual do cinema de Space-Opera, tendo trabalhado diretamente na concepção visual de Alien, Tron, Abismo e Quinto Elemento, entre outros.


40 days dans le Désert B, pranche 33, 1999


Foi consagrado Melhor Artista em Artes Gráficas por Jack Lang, então ministro francês da Cultura, recebendo, em 1985, a Ordem das Artes e das Letras pelo então presidente da França, François Mitterrand.


Em um caso raro de artista em contínuo processo de renovação e auto-invenção, nos últimos anos Giraud ainda produzia obras inovadoras e de tirar o fôlego.


Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em um encontro promovido no Rio de Janeiro pela Livraria Francesa e o Consulado da França. E depois disso  chegamos a nos reencontrar em Paris para algumas conversas e saladas de folhas cruas. Jean era uma pessoa incomum e sua espiritualidade transbordante conflitavam com o racionalismo cartesiano que o cercava. 


Acima de tudo, o melhor desenhista que já existiu, capaz de sustentar uma linha em uma folha de papel com um poder além de qualquer coisa que eu jamais tenha visto. Um GIGANTE. Um GÊNIO. Um GIR.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Abstrato X Figurativo



dezinfluênciasmaisuma 5: Nine


Le Canard qui Aimait les Poules (O Pato que Amava as Galinhas)


Eu creio que o conflito entre figurativo e abstrato nunca existiu. Tudo isso que nós chamamos de "arte" no campo da imagem é uma abstração. E é assim por sua natureza psíquica, mesmo. É fatal. Nós não fazemos um nariz. O que o desenhista faz é evocar, através de traços e golpes de pincel, o conceito de "nariz". Ele o desdobra em um espaço de duas dimensões (altura e largura), que é aquele da folha ou tela. Uma forma tridimensional real é portanto evocada, simbolizada e "amassada" sobre uma forma bidimensional. É um artifício abstrato que, nas mãos de bons artesãos, pode transmitir mensagens sentimentais, exercendo um poderoso poder de sugestão sobre as massas. Mas é uma representação abstrata.


Basta se lembrar da sólida união que sempre existiu entre os artistas e a Igreja na busca da evangelização. As pessoas acabaram se convencendo que sob as abóbadas haviam realmente anjos que voavam porque, mesmo que não fosse verdade, era verossímil e isso nos ajudava a familiarizar com a coreografia de uma nova espiritualidade. Essas técnicas tornavam tragáveis os episódios mais insólitos da fábula católica original. Paolo Uccello, obsecado por uma versão acreditável da perspectiva, esgrimava a aperfeiçoar essas representações, não perseguindo apenas uma pesquisa formal, mas uma necessidade estratégica, ideológica. Com a interrupção do individualismo, todo o sistema de especialidades em representar a realidade desmoronou, o mito da perspectiva desabou, o jogo é então liberado, mas abstrato. Ele sempre foi.


A abstração precede a palavra que a designa. Isso me faz lembrar uma frase do escritor argentino Roberto Arlt: "A realidade é uma hipótese da imaginação". 


(Carlos Nine, hommage à l'arrière-cour, 2008. Entrevista a F.D.)





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