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domingo, 6 de junho de 2010

Animação Sem Segredos

FAZEN’DESENHANIMADO no Núcleo Paulistano de Animação do CCJ
Convidados conversam com o público, apresentam filmes, respondem perguntas, falam de suas idéias e experiências.











Sábado, Dia 12 de Junho
LIGHTSTAR,
FAZEN’DESENHANIMADO 
SEM SEGREDOS
Entrada FRANCA

15h00: Indicações GOLDBERG: Exibição de filmes clássicos de animação, indicados pelo mestre de animação Eric Goldberg, para entender os princípios de Acting, Timing e Spacing.. Acompanha explicação e debate com o curador do Núcleo.

16h30: Jean Cullen & Marcelo Moura, da LIGHTSTAR exibem trabalhos e conversam com o público. A LIGHTSTAR é uma das mais bem sucedidas produtoras de animação brasileiras, produzindo  animações internacionais como a série de tv Escola pra Cachorro (Nickelodeon e TV Cultura), o longa Asterix e os Vikings e o indicado para o Oscar, Brendan e o Segredo de Kells.


N U P A

Núcleo Paulistano de Animação no CCJ
Curadoria: Céu D’Ellia


Mês passado, com o Yabu, batemos recorde de público presente. Estamos entusiasmados com a participação crescente, em número de pessoas e qualidade das perguntas e intervenções. Já dá para sentir que o NUPA (ficou batizado assim o nosso Núcleo Paulistano de Animação) está se firmando como espaço de criação, discussão e aprendizado em alto nível.
Confirmando essa tendência, nossos convidados de Junho são os hiper profissionais talentosos da LIGHTSTAR. Marcelo Moura tem uma carreira internacional brilhante: animador com Don Bluth, Estúdios Disney, Brad Bird (em O Gigante de Ferro, WB) e Blue Sky (ao lado de Carlos Saldanha). De volta ao Brasil, junto com sua esposa irlandesa, Jean Cullen, montou uma escola e um estúdio que já produziu, entre outras coisas excelentes, até mesmo 40% da animação do filme irlândes independente Brendan e o Segredo de Kells, que conseguiu a façanha de ser indicado em 2010 para o Oscar de melhor longa de animação.
Antes  da fala da LIGHTSTAR, vou apresentar algumas das indicações Goldberg. O que é isso? Bom, Eric Goldberg, veterano diretor, design e animador, entre outras coisas, do Gênio de Alladin e do Fauno Phil de Hércules (ambos da Disney), escreveu um dos melhores livros didáticos de animação publicados, "Character Animation Crash Course!" Nesse livro, pra exemplificar aspectos técnicos e estéticos, indica alguns filmes ou cenas específicas de trabalhos de gente como Ken Harris, Chuck Jones, Milt Kahl, John Kricfalusi, Bill Tytla, Ward Kimball e Bob Clampett. A idéia é ver os filmes e estudar em detalhe esses conceitos ensinados pelo Eric.

Vejo você lá:

Av. Deputado Emílio Carlos, 3641 – Vila Nova Cachoeirinha
(11) 3984 2466
(ao lado do terminal de ônibus Cachoeirinha)



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Asterix no Brasil

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I


A GRANDE TRAVESSIA*IX

Traduzir Asterix não é uma tarefa tão fácil. Goscinny gostava muito de fazer jogos de palavras, absolutamente intraduzíveis. Da mesma forma, Uderzo desenha muitos de seus personagens como caricaturas de personalidades francêsas desconhecidas no Brasil.
Ainda assim, é a parte universal do tão regional Asterix que cativa todos os leitores, inclusive os brasileiros. Em uma edição deste ano (2001, quando foi escrito este texto), a revista “República” fez referência a Asterix em sua capa. Confirmando o significado iconográfico de Asterix, a revista representou o presidente dos Estados Unidos como Júlio César e sua legião, e o presidente Fernando Henrique e sua equipe econômica como Asterix e seus amigos. Uma clara referência à globalização e a resistência (bem menos irredútivel) da frágil aldeia.
Asterix é um marco internacional dos quadrinhos. É um clássico da década de 60 e 70, com suas vinte e quatro aventuras . Os sete álbuns produzidos em solo, por Uderzo, entre 1980 e 2001, são bastante diferentes dos anteriores e dividem opiniões. Mas Asterix já conquistou seu espaço definitivamente na história da literatura gráfica.
Através da obra de Goscinny e Uderzo, o leitor brasileiro se inicia em uma linguagem de história em quadrinhos, o estilo europa. O conhecimento dessa linguagem permite o acesso a diversos outros autores, de todo o mundo, igualmente importantes, que também trabalham com a mesma linguagem.
E direcionada a outros objetivos que nem sempre o humor. Além dos citados anteriormente, temos também, por exemplo, Tardi, Moebius, Hermann, Cosey, Jodorowsky, Cadelo, Fred, Chaland, Boucq, Cabanes, Meziéres, Christin, Yann, Pratt, Swarte, etc e etc. Um universo que se desdobra em crítica social, registro histórico, ficção científica e poesia. Trabalhos que envolvem  elaborada pesquisa gráfica e narrativa.
A tradicional forma estadunidense de quadrinhos, os “comics”, com seus super-heróis hipertróficos  que vivem dramas como “minha namorada brigou comigo ontem porque não pude ir no cinema com ela porque estava salvando o planeta” sofreram influência do estilo europa a partir dos anos 70.
Já na década de 80 os comics estadunidenses evoluiram para formas gráficas mais sofisticadas. Ou ainda, por desenvolvimento do underground dos EUA e por influência do estilo europa, fizeram evoluir uma nova tendência chamada pós-literatura, representada por autores como Spiegelman, Sacco, Jeff Smith, Allred e os irmãos Hernandez, por exemplo.
Para os autores brasileiros de quadrinhos, conhecer essa diversidade é uma forma de enxergar além do universo limitado dos super-heróis. O fato de Asterix ter conquistado o sucesso inicial em seu país,incluindo raízes folclóricas francêsas em seus ingredientes, é um dado a se considerar. Fazer quadrinhos pode ser mais do que fazer histórias de gente musculosa que solta raios.
Também é interessante que Asterix tenha conquistado um público de todas as idades. Seus autores conseguiram produzir uma obra que é igualmente interessante para crianças e adultos. Isso demonstra que é possível produzir um trabalho adulto, sem se fixar  obrigatoriamente em sangue, sexo, cinismo e depressão.

I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça.
Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.

IX-A GRANDE TRAVESSIA Título da vigésima segunda aventura (1975). O que se atravessa, no caso, é o Oceano Atlântico. Asterix, Obelix e Idéiafix chegam à América quinze séculos antes de Colombo. Acham que os índios são um tipo de romano da Trácia e voltam para casa, indiferentes.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A mulher em Asterix

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I




A ROSA E O GLÁDIO *VII

Já podemos olhar para o século passado e ver nos quadrinhos um registro da evolução dos costumes, da moda, da história. Se em 1943, Tintin encontra na Escócia uma moderna tv com uma caixa de metro e meio de altura e uma tela de 15 polegadas ( “A Ilha Negra”), o mesmo Tintin irá ligar seu aparelho colorido de 29 polegadas e caixa de pvc em 1976 ( “Tintin e os Pícaros”).
Em 1978, Eugène Krampon congela seus dias no Goulag siberiano ( “O Goulag”de Dimitri ) até se tornar alvo de guerrilheiros afegãos em 1981 ( “Os Reis do Petróleo”) ou de um míssil da USA Army, em 1991, no mar da Turquia ( “Exocet, aqui estamos nós!”).
Em 1959 , quando Asterix e seus companheiros bigodudos começaram a azucrinar a Paix Romana, não haviam mulheres na aldeia gaulesa. Permanecem assim, apenas como figurantes de segundo plano, disputando espaço com as árvores e os passarinhos até 1963. Nesse ano, em sua sexta aventura ( “Asterix e Cleópatra” ) , surge a primeira personagem feminina. Cleópatra, justamente.
Abre a aventura disputando com César “quem é mais forte”. Cleópatra é bela, teimosa, caprichosa e castradora.
Nos anos seguintes a aldeia gaulesa começaria a dar destaque a algumas personagens femininas. A ”mulher de Veteranix”, sempre identificada pelo nome do marido, é uma ruiva voluptuosa e vaidosa, casada com o ancião da aldeia . “Falbalá” é a loira virginal tipo Barbie, que caminha pelos campos colhendo flores, enquanto espera a volta do namorado. “Naftalina”( “Bonemine”, no original ) é a mulher do chefe. Baixinha, castradora, histérica, sempre preocupada em saber se seu marido tem ou não status entre os demais.
A primeira história onde as mulheres vêm verdadeiramente para o primeiro plano é de 1970. Em “A Cizânia” as mulheres da aldeia competem pelo poder. Pequenas baixezas, mesquinharias, fofocas estratégicas. Reuniões para lanches repletos de mexericos. Os homens também não surgem menos antipáticos nesta história de disputa e desafeto.
Se repararmos nas datas poderemos entender, para o mal e para o bem, o tipo de desenvolvimento da imagem e da presença feminina na sociedade dos anos 60, ao menos do ponto de vista dos homens.
A partir de 1980, a confusão toma conta dos papéis da aldeia.É o ano em que Uderzo lança seu primeiro álbum solo, sem a colaboração de Goscinny, que escrevia as histórias. E todos os personagens perdem um pouco de sua definição, misturam-se os estereótipos e as identidades. Uma psicanalista francêsa, Laurence Erlich, analisa que, metaforicamente, talvez Goscinny fosse o “pai” da obra e Uderzo a “mãe”. Com a perda do pai, desapareceu um conceito forte da identidade dos papéis.
De fato,em 1991, com “A Rosa e o Gládio”, o drama vêm a tona. Uderzo produz uma história que busca tratar exatamente do papel feminino e da disputa do poder, mas fica no meio do caminho. As mulheres da história ocupam todos os papéis masculinos, indistintamente se tornam legionárias e centuriãs romanas, chefe da aldeia, bardo e guerreiras. Os homens ficam sem papel, atordoados. Seria o reflexo de uma época onde a questão da identidade masculino-feminina induz a confusões ? São loucos, esses humanos! *VIII


I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS: Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça. Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.

VII-A ROSA E O GLÁDIO: É a vigésima nona aventura (1991). A quinta produzida por Uderzo, individualmente. O título faz referência ao tema principal dessa atrapalhada história: os papéis da mulher e do homem.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os autores de Asterix

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I



O DOMÍNIO DOS DEVSES*VI

René Goscinny nasceu em Paris em 1926 e mudou com seus pais para a Argentina com dois anos de idade, onde viveu toda a infância e a adolescência. Em 1948 foi para os Estados Unidos onde começa a trabalhar, como desenhista, com Harvey Kurtzman, o criador da revista “Mad”. Decide mudar para a França e depois a Bélgica, onde se lança como redator humorista. Cria então o texto de diversas séries, como “Modeste et Pompon” ( com Franquin ), “Le Signor Spaghetti” ( com Attanasio ) e “Oumpah-pah” ( já com Uderzo ). Em 1959 supervisiona a criação da revista Pilote, para a qual cria Asterix, junto com seu colaborador, o desenhista Albert Uderzo. Recebe em 1967 o título máximo francês das Artes e Letras.
Continua trabalhando como redator-chefe de Pilote até 1974, lançando e descobrindo muitos dos principais autores de BD francófone. Escreve o roteiro de diversas outras séries além de Asterix, como “Iznogoud” ( com Tabary ), o grão-vizir que quer ser califa no lugar do califa e “Lucky Luke”( com Morris ), o caubói que atira mais rápido que a própria sombra.
Em 1974 , sempre com Uderzo, cria o estúdio de desenho animado Idéfix.
Em 1977 René morre, após uma crise cardíaca, deixando mulher e filha. Foi o fim da parceria com Uderzo, iniciada vinte e seis anos antes, quando René vivia sozinho em Paris e salvava o estômago graças aos sanduíches que a mãe de Uderzo lhe dava.
Albert Uderzo nasceu em 1927,em Reims, como Alberto, filho de uma família de imigrantes italianos, recém chegada à França. O talentoso desenhista de Asterix veio em um corpo daltônico e com seis dedos em cada mão. Os dedos extra foram removidos, mas o daltonismo o acompanha até hoje. Aos 13 anos, vivendo na França ocupada, trabalha em um jornal como desenhista. Também trabalha como auxiliar de marceneiro e, obrigado pelo exército nazista, como soldador em uma fábrica de armamentos.
O fim da guerra, em 44, abre espaço para um talentoso desenhista que quer fazer desenhos animados. De fato, o interesse pela animação é visível na obra de Uderzo, com suas formas arredondadas e cheias de volume. O proprio Asterix talvez pudesse se disfarçar de anão da Branca-de-neve, sem muito esforço. Durante quinze anos o talento de Uderzo evolui para, em 1959, criar Asterix com Goscinny, em estilo humorístico, e “Tanguy e Laverdure”, pilotos de caça, com Charlier, em estilo realista e técnica apurada. Em 1967, no entanto, abandona todos os seus outros projetos para se dedicar exclusivamente a Asterix.
Com a partida prematura de Goscinny, em 1977, segue produzindo as histórias do pequeno gaulês, acumulando as funções de desenhista e roteirista. A maioria dos leitores sente a mudança e percebe que a qualidade dos roteiros não é a mesma, mas o sucesso continua assim mesmo, sempre com recordes de venda. Uderzo aposenta-se em 2011, mas a série continua, sem a mesma qualidade, nas mãos de Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho).
O sucesso de Asterix em quadrinhos garantiu a Uderzo transpor seus personagem diversas vezes para o desenho animado, como sempre foi seu desejo. Casado desde 1953 com Ada, com quem teve uma filha, Sylvie, falece, em 2020, serenamente no sono, também por crise cardíaca. 
A biografia dos autores nos remete novamente aos irredutiveis gauleses que resistem diante do exército de César. Goscinny certamente conheceu a pressão social diversas vezes em sua vida. Afinal, quando desembarcou nos Estados Unidos com 22 anos de idade, sozinho, era um sul americano judeu que vivera na Argentina por 20 anos. Uderzo viveu sua infância e adolescência em uma França ocupada. E, na verdade, os primeiros leitores de Asterix, em 59, eram crianças nascidas durante ou imediatamente depois da ocupação alemã.

Texto atualizado dia 24 de Março de 2020, por ocasião do falecimento de Albert Uderzo.

I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS: Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça. Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.


VI-O DOMÍNIO DOS DEVSES: É o nome da décima sétima aventura (1971). E também o nome de um conjunto habitacional que Júlio César quer construir ao lado da aldeia gaulesa.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O ícone Asterix

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I




ASTERIX E OS LOVROS DE CÉSAR *V


Mas de qualquer forma, por mais talentosos que fossem, e por mais favoráveis as condições, o fenômeno foi sem precedentes. E isso provavelmente pode ser explicado por Asterix ter alcançado, enquanto símbolo pop, um significado maior. Asterix tornou-se um ícone.

O baixinho bigodudo é dotado de força sobre-humana, pois bebe a poção mágica preparada pelo druida Panoramix. Habita uma pequena aldeia gaulesa, cujos habitantes, apesar de discutirem vez ou outra por causa da qualidade do peixe ou dos cantos do bardo, são muito unidos. E essa união, somada à força da poção mágica e à astúcia de Asterix, garante que a aldeia resista... irredutível !

Resista irredutível ao exércitos do mais poderoso império de todos os tempos, a Grande Águia, a Roma Imperial de César.

São múltiplos os significados a extrair disso. O mais evidente diz respeito à invasão do mundo pela força econômica e militar dos EUA, bem como à “americanização” dos costumes. Coca-cola, McDonald’s, Hollywood, Calça Jeans, Elvis Presley, etc. De um lado, isso. Do outro, a cultura francêsa, cada vez mais ilhada, como em uma pequena aldeia. Essa é uma sombra da década de 50 para a França do pós-guerra.
Mas de certa forma essa sombra se espalhou. E a pequena e irredutível aldeia gaulesa também pode representar toda diversidade cultural de diferentes povos do mundo que desaparece, ou resiste em pequenos redutos, diante da comunicação de massa e do mundo globalizado. Índios, camponêses, artesãos, artistas independentes, pequenos e médios comerciantes engolidos pelo Império.
Proféticamente, na última aventura que escreveu, no auge de sua criatividade e capacidade crítica, Goscinny emoldurou esse significado. “Obelix e Cia”, de 1977 conta do plano mais diabólico traçado pelos romanos para destruir a aldeia : Um jovem conselheiro, recentemente saído da “Nova Escola”, propõe a César que introduza a ganância pelo dinheiro na aldeia.
Vai mais além. Começa a comprar os (inúteis?) menires entalhados por Obelix, o grande amigo de Asterix. Obelix se vê envolvido em uma situação onde começa a se tornar cada vez mais rico e como não tem mais tempo de caçar e é pressionado a fazer mais menires em tempo menor, contrata empregados. E pronto: a aldeia gaulesa abre-se para a mais valia. Em pouco tempo surgem outras “empresas”, dentro da aldeia, para competir com a de Obelix, que afinal, tormou-se mais rico que o próprio chefe, sendo agora o invejado “homem mais importante”. A competição traria o fim da união entre os habitantes da aldeia, colocando-os dependentes das decisões do Império ?
Era atual em 1977 ? Parece que hoje continua sendo.
O baixinho bigodudo é dotado de força sobre-humana, pois bebe a poção mágica preparada pelo druida Panoramix. Estamos aqui diante da ancestralidade. Gauleses são celtas, e druidas são os conhecedores dos segredos e mistérios da Natureza. Colhem o zimbro e o visgo com suas foices mágicas. Veneram o carvalho e outras grandes árvores. Os celtas são habitantes dos campos e das florestas. Representam a Europa crepuscular e suas raízes mais profundas. Em algum ponto original marcam as mais antigas tradições folclóricas.
Os gauleses diante dos romanos representam a magia diante da racionalidade.
O primeiro livro de medicina ocidental foi escrito por um contemporâneo de César (e de Asterix , em tese...). O romano Celso Cornelio criticava o empirismo e pensava que a medicina precisava ser racional e baseada no estudo da materialidade. Compilou Hipócrates e, prático como todo bom romano, descreveu minuciosamente a atividade cirúrgica. O personagem histórico Celso Cornélio representa a parte mais palpável do Ocidente e sua cultura racional. O personagem imaginário Panoramix representa o diáfano, a magia latente e as antigas superstições do folclore. Em algum lugar do imenso Império Racional do Ocidente Material, resiste a poesia invencível da pequena aldeia gaulesa, com seu druida, de longas barbas brancas, dotado de misterioso conhecimento mágico...
Provavelmente ninguém levou tão a sério como Goscinny e Uderzo a epígrafe tolstoiana, “Fale de seua aldeia e será universal”...
*I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS: Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça. Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Asterix enquanto Arte Pop


QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I

POR BELENVS ! (E POR TOUTATIS !) *IV

O incomum sucesso internacional de bilheteria e home video de um longa metragem francês, “Astérix e Obélix” de Claude Berry , apontou uma alternativa para a indústria cinematográfica francesa, que traduz a importância dos quadrinhos para a cultura popular.

Ao criarem Asterix, seus autores estavam cumprindo o beabá da arte pop :

· Resgatando valores folclóricos ( os gauleses são os ancestrais mais remotos dos franceses )
· Traduzindo esses valores para a atualidade ( a Gália de Asterix é uma paródia do mundo contemporâneo )
· Utilizando como mídia um veículo de comunicação de massa ( No caso, as histórias em quadrinhos )
Claro que não bastou essa receita para garantir o sucesso. Somou-se a isso o talento excepcional de seus dois autores e um conjunto de circunstâncias ambientais e econômicas propícias.
Seja como for, Asterix resgatou raízes da cultura não só francesa, mas européia, já que os celtas não se restringiram ao hexágono francês. Misturou essas raízes com a atualidade . Utilizou a linguagem de quadrinhos, de origem estadunidense, e a vestiu com as cores e traços locais.

*I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS : Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça. Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O quadrinho francófone

QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS ! *I

Frio Equador, de Enki Bilal



ASTERIX EM VMA VOLTA PELA GÁLIA *III

O fenômeno Asterix não aconteceu isoladamente. Pertence a um contexto amplo, que o antecede e vêm até os dias de hoje: A “Banda Desenhada Francófone” ou os “Quadrinhos Estilo Europa”.
Por que “francófone”e não “francêsa”? Por que nem todos os autores são francêses, mas o idioma das edições originais sim.
De fato, o primeiro grande nome da BD Francófone é um belga. Georges Rémi, o “Hergé”, iniciou as aventuras de Tintin e Milou em 1929. No início, essas histórias , que narravam aventuras de um jovem repórter e seu cão pelo planeta, reproduziam uma visão européia estereotipada e colonialista do mundo. Até que, em 1934, Hergé levou Tintin ao Extremo-Oriente em uma obra-prima, que é um divisor de águas : “O Lótus Azul”. Nessa aventura, pela primeira vez, Hergé preocupou-se com o conteúdo e a qualidade das informações divulgadas. Documentou-se, contou com acessores. E essa tornou-se uma das características principais da BD francófone : a valorização do conteúdo, pesquisa e documentação.
O quadrinho europeu ocupou para o público a lacuna de uma produção de cinema de animação contínua , com conteúdo próprio. Os desenhos animados, predominantemente estadunidenses, faziam muito sucesso, mas não supriam totalmente o interesse por um produto mais regional. Além disso, com a 2a Grande Guerra, interrompeu-se, por um período, o recebimento de filmes e quadrinhos estadunidenses, abrindo-se espaço para o produto nacional.
Em 1959, quando surgiu a revista Pilote, o mercado editorial de quadrinhos já estava consolidado. Hergé havia ampliado sua produção, com a criação de um estúdio que lançou outros autores, como Jacobs e Martin, colaboradores de uma revista semanal também chamada “Tintin”. Uma editora concorrente publicava “Spirou”, que repetia o sucesso de “Tintin” e lançava autores como Franquin, Jijé e Morris. E essa é outra importante característica do quadrinho estilo europa: trabalho de autor. Ao contrário dos comics estadunidenses, onde os autores são uma linha de produção por detrás de um título, cada autor europeu busca sua especificidade, seu estilo.
Quando Goscinny e Uderzo criaram Asterix, introduziram uma nova tendência de humor ao gênero de aventura popular na Europa. Fizeram isso por influência do sucesso, nos Estados Unidos, da revista de sátira “Mad”, com cuja equipe Goscinny havia trabalhado no período em que viveu na América do Norte.
O sucesso de Asterix e Pilote estimulou o surgimento de novas gerações de autores. O gênero foi amadurecendo e, a partir do final da década de 60, os quadrinhos europeus passaram a ser produzidos não só para crianças ou público de todas as idades. Surgiram quadrinhos voltados exclusivamente para adultos, com desenhos e temas mais complexos e críticos. Proliferaram novos títulos.
Essa evolução também reforçou mais uma característica do quadrinho estilo europa : o apuro gráfico. Enquanto o gênero comics privilegia o descartável . Um título estadunidense produz em média 240 páginas por ano, para uma média de 48 páginas anuais, no estilo europa.
O sucesso da banda desenhada francófone atraiu artistas para além da França e da Bélgica. Italianos, espanhóis e diversos autores do leste europeu e da América Latina encontraram no mercado francófone a alternativa para sua produção.
Em 1992, Enki Bilal lançou “Frio Equador”. Bilal, iugoslavo radicado na França, deu seus primeiros passos na década de 70, na revista Pilote. “Frio Equador” recebeu da crítica literária francêsa o título de um dos dez melhores livros do ano. Em outras palavras: uma história em quadrinhos foi considerada literatura. E das boas.
Com o fortalecimento da Comunidade Européia, a BD francófone tornou-se o epicentro de estratégias para alavancar a produção cinematografica e a expansão editorial por todo o mercado europeu. Cada vez mais os personagens são adaptados para desenhos animados, filmes e telefilmes, videogames e sites promocionais. Editores buscam alternativas intermediárias entre o tradicional trabalho de autor e o estilo estadunidense de produzir em maior quantidade. Em resumo, a produção de BD atravessa os mares da “globalização” e, como tudo o mais, não sabe o que encontrará do outro lado.

*I-QUE O CÉV NÃO CAIA SOBRE NOSSAS CABEÇAS: Os gauleses de Asterix são destemidos e só tem medo de uma coisa - Que o céu lhes caia na cabeça.Este conjunto de textos foi escrito em 2001, pouco depois do ataque às Torres Gêmeas. Deveriam ser a linha guia de uma exposição no Centro Cultural São Paulo, sobre a BD francófona. Mas a mesma foi cancelada devido ao argumento, do então cônsul francês em São Paulo, que a BD na França já não tinha mais importância e seria melhor organizar um evento de hip hop. A conclusão a que cheguei depois dessa fala, é de que o governo francês não é muito criterioso na escolha de seus representantes no Brasil.
*III-ASTERIX EM VMA VOLTA PELA GÁLIA: É o título da quinta aventura de Asterix (1965). Nela, o herói viaja por toda a Gália, visitando cada cidade, em uma paródia das diferentes regiões francesas atuais.

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